terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dr. Borges Netto, primeira parte

Existe por aí bons escritores, pessoas que marcaram por grandes feitos. Campanha é uma cidade com grandes nomes, nomes que representa nossa comunidade no Brasil e no mundo, exemplos mais comuns são: Vital Brasil e Maria Martins. Entre muitos, um que vamos abrir espaço  é para o ilustre Dr. Borges Netto. Sobre sua vida conseguimos sua trajetória de vida escrita pelo Sr. Leonardo Lima no seu trabalho BIOGRAFIAS DE ILUSTRES CAMPANHENSES.

"JOSÉ BORGES NETTO, Campanhense, advogado, escritor, jornalista. Era filho de Cristiano Borges da Costa e Ana Filomena de Jesus, nascido em 24/05/1892.Seus primeiros estudos foram feitos no bairro rural de Campo Grande, onde nasceu e sua primeira professora no primário foi Maria Joaquina. Já os estudos de humanidades foram no Ginásio Santo Antonio, Externato Jonas Olinto e no ginásio de Silvestre Ferraz (hoje Carmo de Minas). Em seguida matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, terminando o curso na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, para onde se havia transferido. Em 1910 fez parte do Grêmio União Teatral Campanhense. Em 25/06/1922 funda junto com uma plêiade de pessoas caridosas, a Conferência Santo Antônio, entidade filantrópica de auxílio aos pobres da cidade. Junto com diversos intelectuais fundou o Instituto Historio e Geográfico da Campanha, ocupando o cargo de secretário. Casado com Sara de Azevedo Borges. Fez parte do corpo docente do Colégio Sion. Redator e proprietário do “Templário” (1936) jornal quinzenal de literatura, noticioso, humorístico e ilustrado, tendo como principais colaboradores os senhores Dr. José Braz Cesarino, Nicolau Tolentino de Morais Navarro e o poeta Plínio Motta. Esteve algum tempo na chefia da redação do jornal “Colombo” (2ª fase), de 1917 a 1924, jornal este de propriedade de Dr. Jefferson de Oliveira. Adquiriu com Dr. Nicolau Tolentino Navarro e Amador Horta uma oficina gráfica e fundou o jornal “Colombo” (2º do nome), tornando-se diretor, enquanto Dr. Nicolau Navarro figurava como redator e o senhor Francisco dos Santos como editor. Foi Delegado de Polícia por diversos anos. Foi o último Agente Executivo da cidade tendo ocupado o cargo no período de 15/01/1929 a 07/12/1930. Depois entrou a era dos prefeitos e nessa condição ocupou o cargo de 12/01/1936 a 15/07/1936. Foi vereador no período de 01/02/1951 a 31/01/1955 e também nos períodos de 01/02/1959 a 31/01/1963; de 01/02/1963 a 31/01/1967. Foi o responsável maior pela transferência da Academia Sul-Mineira de Letras de Cambuquira para Campanha. Autor do livro “No Silêncio”, que foi prefaciado pelo grande escritor Monteiro Lobato, tendo recebido de “A Revista do Brasil” grande elogio. Além desse livro é autor de peças teatrais “Marimbondos na Cidade”, “Encrenca na Zona”, “Esposa Solteira” e “Cenas Ligeiras”. Também autor dos opúsculos “Oração de Fé”, “A Esponjeira” e “Noite de Natal”. Publicou durante dois anos a excelente revista “Alvorada” (1928 e 1930) que era mensal, literária, humorística e ilustrada, tendo como colaboradores: Dr. Nicolau Tolentino de Morais Navarro, Eduardo Nogueira, Luiz Veríssimo Paes, Luiz Andrés Júnior, Rubens Rezende e Thomaz de Aquino Araújo. Em 1932 foi escolhido para integrar a Junta Regional da Liga Eleitoral Católica, sendo designado Secretário e em 15/07/1934 é eleito Secretário-Geral da mesma Junta. Em 17/05/1927 é eleito vice-presidente da Câmara de Vereadores. Um dos fundadores do jornal “Minas do Sul” (2º jornal de mesmo nome), sendo seu diretor (1935 – 1936). Os outros fundadores foram: Dr. Jefferson de Oliveira, Dr. Nicolau Tolentino de Morais Navarro e Amador Horta. Muito colaborou com o jornal “Sul de Minas” (segundo jornal de mesmo nome) e que circulou de 6/6/1936 a junho/1943, fundado por Dr. Nicolau Tolentino de Morais Navarro e cujo gerente foi Carlos Batista de Mello. Em 1936 é eleito Presidente do Jóquei Clube Campanhense (prado que ele e outros companheiros construíram). Foi Prefeito da cidade de 12/01/1936 a 15/07/1936 (nomeado por Benedito Valadares). Foi Delegado de Polícia (nomeado em março de 1926), Promotor interino, Inspetor Escolar. Na década de 1940 organizou um conjunto de serenatas composto por Aldo Garotti, Vinícius Vilhena de Morais, Sara de Azevedo Borges (sua esposa) e por ele mesmo que tocava flauta. Em 1947 trouxe para Campanha uma agência do Banco Itajubá, tornando-se Gerente da Agência. Faleceu, aos 93 anos, no dia 17/2/1985. É com enorme justiça nome de Rua em Campanha. Para saber mais, consultar: “Os Correios na História da Campanha”, de Thomaz de Aquino Araújo e Carmegildo Filgueiras, 1973 e “Biografias” no Centro de Estudos Mons. Lefort; “A Campanha”, jornal 718 de 10/07/1918; 930 de 14/03/1926."

LIMA, Leonardo Biografias De Ilustres Campanhenses. Acervo: CDECML - Campanha MG


Imagem ilustrativa do livro de sua autoria No Silêncio... Contos / Acervo: CDECML


Livro No Silêncio... Contos
Editores Pocai & Comp. São Paulo 1918 
Prefácio Dr. Monteiro Lobato
Ilustrações de B.B. Barreto


Ao Dr. Flavio C. Guimarães
O Necrologio do Oliveira

"Quem é que anda aí? Quem é?
Era meia noite. A chuva, grossa, caia incessante. Goteiras estalavam nas pedras e a água, barulhenta, rolava nas sargentas. 
Havia pouco que eu chegara da rua. Estivera preso por causa da chuva, até quase aquela hora, em casa da família Brasil.
Debruçado sobre a mesa, com diversas tiras de papel á minha frente, tentava rabiscar alguma coisa para o jornal de um amigo - o Oliveira. Mas nunca me senti tão embotado como naquela noite; encontrava uma certa dificuldade em escrever e faltava-me também o assunto.
Metia com força a pena no velho tinteiro de vidro e ficava a pensar, com os cotovelos fincados na mesa...
Desanimado, com bastante sono, cruzei os braços e pus-me a andar ao longo do quarto. Sentei-me novamente, com os dedos enterrados nos cabelos, e fiquei á espera, á cata de um motivo para o artigo.

O Oliveira, nortista de talento e muito moço ainda, era o diretor do jornal. Conheci-o numa tarde fria de junho, no Café Acadêmico.
Fazia pouco tempo que aparecera na Capital e, de um dia para outro, começou de assinar artigos de valor em quase todas as folhas diárias.
Quando fundou o seu jornal, no ano passado, pediu-me que mandasse alguma coisa, que escrevesse...
Lá ficava ele o dia todo, com um par de vidros grossos brilhando nos olhos a escrever atentamente, ou a folhear algum livro, muito curvado sobre uma das mesas da redação. 
Magro muito triste, tossia continuado e andava sempre metido num terno antigo de casimira prata.
O Oliveira Netto era uma grande alma e um grande amigo e foi com profundo pesar que o abracei na gera da luz, quando embarcava para Minas, em busca de melhoras para sua saúde...
- Quem é que anda aí? Erguei-me de um salto e perguntei com voz tremula, apertando, nervoso, o cabo do punhal.
As minhas palavras perderam-se no aposento fechado. Tudo silêncio. Só a chuva continuava lá fora.
Alguém andava na sala. Senti o arrastar de uma cadeira e o ruido que faz uma pessoa ao sentar-se. Escutei melhor e ouvi a cadeira estralejar de novo e os passos continuaram meio arrastados, parando diante da porta fechada do meu quarto...
Um arrepio de medo, como um forte choque elétrico, ocorreu-me da cabeça aos pés. Não era possível, pois só eu morava ali e as portas estavam bem trancadas, tinha certeza disso. Não era possível!
Estaria eu dormindo? Belisquei-me para me certificar da verdade e trinquei o beiço de dor. Estava acordado e em perfeito juízo.
E assim passei momentos angustiosos, retendo, apavorado, a respiração e fazendo mil conjuras.
Criei coragem e, resoluto, ia abrir a porta, quando uma voz abafada, vinda de fora, quase como um gemido, falou vagarosa e arquejante:
- A morte de Oliveira... escreva sobre a morte do Oliveira!
E os rumores dos passas se afastaram, meio arrastados, apagando-se ao longe, lá pela sala de jantar.
Fulminado por aquelas palavras fúnebres, cheio de terror, senti uma espécie de vertigem e cai sentado pesadamente na cadeira.
Gotas de um suor gelado rolavam-me pelo rosto. Tudo aquilo parecia um sonho.
Inerte, quase sem tomar folego, como que petrificado, ali passei o resto da noite, sem atnar bem com o que devia fazer - se obedecer ou não a voz misteriosa...
Fora, distante, os primeiros cantos dos galos misturavam-se com o ruído da chuva que caía sempre. Perto, na esquina, um trilar agudo de apitos rasgou a monotonia da noite...
Pela manhã, logo que a cidade acordou, fui ansioso ainda impressionado, á redação do jornal do Oliveira, pedir notícias do meu infeliz amigo. Encontrei os seus auxiliares alvoroçados. Um telegrama lacônico, vindo de Minas, tinha trazido a nova do falecido de Carlos de Oliveira Netto.
E, quando entrei, o Reis, secretário do jornal, adejando tristemente no ar a sua mão pequena e magra, exclamou:
- Vieste em boa hora. Escreve para nós o necrologio do Oliveira, tu que o conhecias tanto e que tanto o estimavas...
E até hoje ainda cismo, cismo sem compreender bem, e guardo comigo o mistério daquela noite de chuva e de frio..."

Aterrorizante, logo postaremos a segunda parte com mais contos do ilustre Dr. Borges Netto e suas publicações na Revista Alvorada. 

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