– Está aí a Sinhá Anninha? – Perguntou a meia voz o Antônio
Mathias, mulato gordo e alegre com fumaças de valentão, ao “tio” Ignacio, um
velho que estava encostado ao umbral encardido de uma casinha amarela, com uma
pintura fresca e oca.
– “Não”; respondeu amavelmente o outro – “mas não deve
demora. Apeia um pouco. Parece que tá de saída, não espera o resto da festa, a
procissão de hoje?”.
– “Não posso; a casa ficou sozinha e a criação anda lá a
toa, sem trato direito”.
– “Pois é mió fica. Não presta a gente viaja na Sexta-feira
Santa, e ainda de noite. Oia o que aconteceu com aquele moço do Retiro, o seu
Chiquinho, tá lembrado? E daqui no Campo Grande é um pedaço de chão – três
léguas...”.
– “Duas horas e meia, bem puxada... Mas não tem perigo.
Quando tou neste piquirinha de confiança, espaiadô de sordado, e com essa
cachorrinha paquera – a Giriza, não
tenho medo nem de sombração... E! Cueio!” gritou o mulato caipira, dando uma
palmada forte no pescoço do cavalinho, fazendo-o estremecer debaixo dos
arreios.
Depois de deixar um recado à
Sinhá Anninha, Antõnio Mathias firmou-se nos estribos novos de metal,
endireitou o chapéu na testa, despediu-se e deu de rédeas, picando com as
esporas a anca do animal, que saiu numa andadura forçada, atravessando quase a
galope a chapada cheia de gente.
Ganhou logo o alto do Mandú e
tomou pela estrada batida e larga, sulcada fundo pelas tropas e carros de bois
que vinham de São Gonçalo.
Ameaçava chuva e pelas alturas
não aparecia nem uma estrela.
Quando descia o morro do Lavapés;
já noite fechada, embalando vagarosamente pelo piquira, num ruído monótono de
lombilho novo, voltaram-lhe as palavras do “tio” Ignacio: “Oia o que acontece
com aquele moço do Retiro”... Era verdade; e ele sabia de tudo... Já estava
meio arrependido de não ter ficado.
Daí a pouco atravessava o Mato
Grosso e, já da outra banda, saiu-lhe a frente um curiango que o assustou. “E
algum aviso...” cismou, descobrindo-se diante de duas cruzes que se levantavam
dum lado do caminho, meio apagadas na escuridão.
– “Deve sê tarde, e hoje a passagêra não apita pra gente
sabe as horas...” pensou o caipira, erguendo os olhos para o céu coberto de
nuvens negras.
No espigão, onde as estradas se
bifurcavam, pegou ao menos batida, a do Campo Grande, e, enquanto o animal, num
trote largo, ia caminhando banhado de suor, ele, com a ideia presa na imagem da
morena dengosa da chapada, rompeu a cantar em voz alta, rasgando o silêncio
daqueles lugares ermos e tristes:
Dentro
do seu pensamento
Sei
que vive um coração...
A cidade,
apesar da chuva que ameaçava cair, estrava bastante animada com os festejos e
tinha um movimento desusado e alegre.
As ruas principais, por onde
devia passar o Esquife, foram varridas e, em alguns pontos, estavam juncadas de
folhas verdes de laranjeira.
Das janelas das casas mais
importantes, alumiadas com lanterninhas de vidro e de papel, pendiam colchas
caras e bonitas, listadas de cores variadas.
Os sinos conservavam-se mudos e
as matracas ressoavam estalando irritantes na meia escuridão do templo.
O povo esperava o saimento da
procissão do Senhor Morto, aglomerando-se dentro e fora da igreja, na farmácia
e nas vendas próximas, aos magotes pelas esquinas e debaixo das duas enormes
casuarinas – guardas gigantes da porta da Matriz.
A chuva
desabou formidável sobre a cidade acompanhada de relâmpagos e trovões,
justamente na hora em que saiam as primeiras alas das irmandades religiosas,
impedindo assim o desfile da procissão do Enterro...
– “Nossa Senhora de Aparecida!” exclamou Antônio Mathias,
meio engasgado de susto, encolhido nos arreios e de cabelos eriçados de medo.
Os seus olhos, muito arregalados, viam um vulto branco, semelhante a uma rede
de defunto, suspenso no meio da cova, que um relâmpago mais forte acaba de iluminar,
através das árvores da Serrinha.
O cavaleiro estremeceu, estacou
de súbito, virou de repente para trás, disparado, e teria atirado o mulato por
terra se ele não fosse o peão de fama que era.
Somente ao apanhar de novo a
estrada larga de São Gonçalo, acompanhado da cachorrinha, que gania arrepiada,
com a cauda entre as pernas, somente de volta para a cidade é que ele percebera
que o chapéu tinha ficado. E atreveu-se então a olhar para o lugar de onde
correra apavorado, respirando com mais alívio e apeando para arranjar as presas
o lombilho que saia pelas ancas do animal.
Na descida, todo molhado, com os
queixos cerrados de frio, quando procurou a faca para fazer um cigarro, não a
encontrou na bainha e resmungou contrariado: “Diabo! Não é que perdi também a
pareiada...” Lembrou-se então que tinha atravessado entre os dentes a lâmina de
aço, porque sempre ouvira dizer que era assim que se esconjuravam assombrações.
E ela se lhe tinha escapado dos dentes na correria precipitada.
De vez em quando o caipira meneava
tristemente a cabeça: “Ta aí... Bem o ‘tio’ Ignacio falou...”.
E horas depois, quando os
primeiros galos principiavam a cantar, ele, sem chapéu e com receios de que a
Sinhá Anninha zombasse da sua coragem afamada, batia envergonhado na porta da
casinha amarela da chapada...
[...]
Ninguém teria acreditado na história de
“sombração” do Antônio Mathias, se algum tempo depois, quando o fazendeiro do
Campo Grande mandou consertar os caminhos para os carros da fazendo, não
tivesse encontrado enterrado na cova da Serrinha, junto da pedra, quase na
porteira, um velho esqueleto humano, já a desfazer-se em pó...

Meus parabéns pelo blog! Resgatando toda a memória imaterial e fantasmagórica de Campanha! Parabéns mesmo! Gostaria um dia que falasse também dos arredores do "Três Cruzes", onde minha mãe passou toda sua infância e dizia ser assombrado.
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