sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Assombramento na Sexta-Feira Santa



– Está aí a Sinhá Anninha? – Perguntou a meia voz o Antônio Mathias, mulato gordo e alegre com fumaças de valentão, ao “tio” Ignacio, um velho que estava encostado ao umbral encardido de uma casinha amarela, com uma pintura fresca e oca.
– “Não”; respondeu amavelmente o outro – “mas não deve demora. Apeia um pouco. Parece que tá de saída, não espera o resto da festa, a procissão de hoje?”.
– “Não posso; a casa ficou sozinha e a criação anda lá a toa, sem trato direito”.
– “Pois é mió fica. Não presta a gente viaja na Sexta-feira Santa, e ainda de noite. Oia o que aconteceu com aquele moço do Retiro, o seu Chiquinho, tá lembrado? E daqui no Campo Grande é um pedaço de chão – três léguas...”.
– “Duas horas e meia, bem puxada... Mas não tem perigo. Quando tou neste piquirinha de confiança, espaiadô de sordado, e com essa cachorrinha paquera – a Giriza,  não tenho medo nem de sombração... E! Cueio!” gritou o mulato caipira, dando uma palmada forte no pescoço do cavalinho, fazendo-o estremecer debaixo dos arreios.
Depois de deixar um recado à Sinhá Anninha, Antõnio Mathias firmou-se nos estribos novos de metal, endireitou o chapéu na testa, despediu-se e deu de rédeas, picando com as esporas a anca do animal, que saiu numa andadura forçada, atravessando quase a galope a chapada cheia de gente.
Ganhou logo o alto do Mandú e tomou pela estrada batida e larga, sulcada fundo pelas tropas e carros de bois que vinham de São Gonçalo.
Ameaçava chuva e pelas alturas não aparecia nem uma estrela.
Quando descia o morro do Lavapés; já noite fechada, embalando vagarosamente pelo piquira, num ruído monótono de lombilho novo, voltaram-lhe as palavras do “tio” Ignacio: “Oia o que acontece com aquele moço do Retiro”... Era verdade; e ele sabia de tudo... Já estava meio arrependido de não ter ficado.
Daí a pouco atravessava o Mato Grosso e, já da outra banda, saiu-lhe a frente um curiango que o assustou. “E algum aviso...” cismou, descobrindo-se diante de duas cruzes que se levantavam dum lado do caminho, meio apagadas na escuridão.
– “Deve sê tarde, e hoje a passagêra não apita pra gente sabe as horas...” pensou o caipira, erguendo os olhos para o céu coberto de nuvens negras.
No espigão, onde as estradas se bifurcavam, pegou ao menos batida, a do Campo Grande, e, enquanto o animal, num trote largo, ia caminhando banhado de suor, ele, com a ideia presa na imagem da morena dengosa da chapada, rompeu a cantar em voz alta, rasgando o silêncio daqueles lugares ermos e tristes:

Dentro do seu pensamento
Sei que vive um coração...


A cidade, apesar da chuva que ameaçava cair, estrava bastante animada com os festejos e tinha um movimento desusado e alegre.
As ruas principais, por onde devia passar o Esquife, foram varridas e, em alguns pontos, estavam juncadas de folhas verdes de laranjeira.
Das janelas das casas mais importantes, alumiadas com lanterninhas de vidro e de papel, pendiam colchas caras e bonitas, listadas de cores variadas.
Os sinos conservavam-se mudos e as matracas ressoavam estalando irritantes na meia escuridão do templo.
O povo esperava o saimento da procissão do Senhor Morto, aglomerando-se dentro e fora da igreja, na farmácia e nas vendas próximas, aos magotes pelas esquinas e debaixo das duas enormes casuarinas – guardas gigantes da porta da Matriz.
A chuva desabou formidável sobre a cidade acompanhada de relâmpagos e trovões, justamente na hora em que saiam as primeiras alas das irmandades religiosas, impedindo assim o desfile da procissão do Enterro...


– “Nossa Senhora de Aparecida!” exclamou Antônio Mathias, meio engasgado de susto, encolhido nos arreios e de cabelos eriçados de medo. Os seus olhos, muito arregalados, viam um vulto branco, semelhante a uma rede de defunto, suspenso no meio da cova, que um relâmpago mais forte acaba de iluminar, através das árvores da Serrinha.
O cavaleiro estremeceu, estacou de súbito, virou de repente para trás, disparado, e teria atirado o mulato por terra se ele não fosse o peão de fama que era.
Somente ao apanhar de novo a estrada larga de São Gonçalo, acompanhado da cachorrinha, que gania arrepiada, com a cauda entre as pernas, somente de volta para a cidade é que ele percebera que o chapéu tinha ficado. E atreveu-se então a olhar para o lugar de onde correra apavorado, respirando com mais alívio e apeando para arranjar as presas o lombilho que saia pelas ancas do animal.
Na descida, todo molhado, com os queixos cerrados de frio, quando procurou a faca para fazer um cigarro, não a encontrou na bainha e resmungou contrariado: “Diabo! Não é que perdi também a pareiada...” Lembrou-se então que tinha atravessado entre os dentes a lâmina de aço, porque sempre ouvira dizer que era assim que se esconjuravam assombrações. E ela se lhe tinha escapado dos dentes na correria precipitada.
De vez em quando o caipira meneava tristemente a cabeça: “Ta aí... Bem o ‘tio’ Ignacio falou...”.
E horas depois, quando os primeiros galos principiavam a cantar, ele, sem chapéu e com receios de que a Sinhá Anninha zombasse da sua coragem afamada, batia envergonhado na porta da casinha amarela da chapada...
[...]
Ninguém teria acreditado na história de “sombração” do Antônio Mathias, se algum tempo depois, quando o fazendeiro do Campo Grande mandou consertar os caminhos para os carros da fazendo, não tivesse encontrado enterrado na cova da Serrinha, junto da pedra, quase na porteira, um velho esqueleto humano, já a desfazer-se em pó... 

Um comentário:

  1. Meus parabéns pelo blog! Resgatando toda a memória imaterial e fantasmagórica de Campanha! Parabéns mesmo! Gostaria um dia que falasse também dos arredores do "Três Cruzes", onde minha mãe passou toda sua infância e dizia ser assombrado.

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