Minhas recordações é uma produção do campanhense Francisco de Paula Ferreira de Rezende. Sua recordação de infância traz as lembranças de sua babá, preta Margarida que conta lendas interessantes sobre a cidade, postaremos o capítulo referente á preta Margarida.
Capítulo X
O
autor narra à preta Margarida as peripécias da sua viagem à Corte e a preta
Margarida o escuta maravilhada. Quem era a preta Margarida. As histórias que
ela contava e as muitas coisas que ensinava. Para bem se conhecer a humanidade,
não basta conhecer-lhe a casca. Um pouco de filosofia e da alta história é a
necessário; mas não se esqueça, o povo, os preconceitos e até mesmo as
superstições absurdas. O saci-perêrê e a mula-sem-cabeça. Bruxas e lobisomens.
Os doentes de enxaqueca e os lobisomens. Uma lenda curiosa sobre a Campanha e
como é que a preta Margarida explicava as diferenças de cor na espécie humana.
Ainda no tempo
em que fui à Corte muito poucos eram os homens da Campanha, que a não serem
tropeiros ou comerciantes, tivessem feito essa viagem; e se isto se dava com os
homens, quanto mais com as mulheres ou com os meninos!
Eu,
entretanto, que ainda não tinha 8 anos, já havia viajado 138 léguas de ida e
volta; tinha visto muitos rios, muitas vilas; tinha ouvido o ribombar da
artilharia; tinha andado sobre o mar; tinha entrado em um navio de guerra; e
para tudo dizer em uma palavra, eu tinha ido à Corte. Eu, pois, não só não era
um menino como qualquer outro; mas poderia mesmo ser considerado como um homem
que muito mais do que os outros já bem sabia quanto este nosso mundo era
grande.
Para quem,
porém, este novo Fernão Mendes ou este novo e tão pequeno Marco Polo tomava
proporções ainda mais gigantescas ou a quem ele deixava, digamos assim,
completamente embasbacada com a narração maravilhosa da sua maravilhosa viagem,
era uma preta escrava, que meu bisavô Gaspar havia dado à minha mãe quando eram
ambas pequenas; que foi por isso a primeira cara negra com que me acostumei; e
de quem desde então eu quase nunca me desprendia; porque era ela de muito bom
gênio; e esse gênio era ao mesmo tempo tão igual, que apesar de um pouco
aperreada com minha mãe, nunca tinha, por assim dizer, um só momento de burros
nem mesmo de um simples enfado; mas contente sempre e tendo muito boa voz,
sempre que podia, cantava; e se não podia, conversava ou contava histórias. Esta
preta que era baixa e retinta e que trazia estampado no rosto a alegria e a
bondade que lhe iam pela alma, tinha sido batizada com o bonito nome de
Margarida. Mas ou porque o achasse feio, ou talvez antes, porque muito mais do
que achasse que valia o nome da mãe de Deus, foi crismada com o nome de Ana; e
por isso, ficou desde então se chamando Ana Margarida.
Nem se
estranhe que assim me ocupe, e com uma tão grande e quase que excessiva minuciosidade
de uma simples preta escrava; porque se aqui não omito os meus parentes mais ou
menos sobres e se de preferência procuro falar de gente e de coisas grandes,
contudo o que principalmente me dirige a pena, é a lembrança daqueles a quem
mais devo ou que mais me amaram neste mundo; e esta pobre e alegre negra tanto
me amou, tantas vezes me teve ao colo, que ainda mesmo que eu quisesse, não
poderia jamais dela me esquecer. Outra circunstância, porém, existe ainda, que
faz com que eu não pudesse deixar de mencioná-la aqui; e é, que um dos pontos
do meu programa é o deixar registrado neste escrito o nome de todos os meus
mestres; e ainda que nunca professasse de cadeira, a Margarida sabia tanta
coisa e tanta coisa me ensinou, que ela não pode deixar de entrar na classe dos
meus melhores professores. E isto digo; porque, para bem conhecer-se a
humanidade, não é bastante que se lhe conheça unicamente a casca ou que se
tenham algumas noções de filosofia e alta história; mas ainda preciso, que
igualmente se conheçam as opiniões do povo, os seus prejuízos e até mesmo as
suas absurdas superstições. E em todas estas matérias, a Margarida não era uma
simples curiosa ou uma simples amadora; mas era, pelo contrário, uma verdadeira
professora ou como tal deve ser e, com mente indispensável que tivesse título
ou aula aberta; assim como o divino Sócrates nunca teve a sua aula em lugar
algum determinado, mas ensinava por toda parte ou onde e quando achava
discípulos; e Sócrates, como todos sabem, é o primeiro de todos os professores
que a humanidade tem tido.
Com isto não
quero dizer, que uma tal aprendizagem e que sendo sobretudo feita em uma idade
tão tenra como era a minha, não deixasse de ter os seus inconvenientes; pois
que, além de ser isso uma dessas cosias que a razão nos mostra, eu ainda sei, e
o sei muito bem, que para mim os teve, com efeito, e de uma natureza quase
irremediável. Assim, eu duvido muito, que haja muita gente, que tenha um
espírito, não direi tão são; porque, se é minha opinião que não há ninguém que
não tenha a sua veio de doido e que este mundo não passa de uma verdadeira casa
de “orates” em ponto muito grande; às vezes quase que chego a crer que, pela
parte que me toca, eu estou quase que a entrar para a classe dos loucos
varridos ou daqueles cuja loucura não está coberta com o pó ou com as
aparências de uma tal ou qual razão; mas eu direi, que tenha um espírito tão
livre e tão completamente despreocupado como se acha atualmente o meu.
Pois bem;
ainda hoje, não só extremamente me desagrada, por exemplo, a presença repentina
de um beija-flor de rabo branco que aprendi em menino ser um núncio, de más
novas; mas, sobre-tudo, quando ouço um cão uivar ou uma coruja piar, que também
aprendi ser agouro infalível de alguma morte, por mais que me queira fazer de
duro, eu não posso deixar de sentir imediatamente um estremecimento
involuntário e que me deixa mais ou menos apreensivo por algum tempo. E, no
entretanto, eu sei perfeitamente pela razão e muito mais ainda pela minha
própria experiência, que tudo isto não passa de uma verdadeira loucura.
Mas
enfim, se um tal ensino teve para mim inconvenientes maus, a intenção foi boa
ou não foi má; e, em todo o caso, graças à minha boa Margarida, sei hoje tantas
coisas, que a maior parte dos doutores de borla e capelo não sabem nem sequer
talvez a metade. E para que não se diga, que exagero ou que procuro dar à minha
mestra um mérito muito maior do que poderia ter, vou dar aqui alguns espécimes
desses conhecimentos que ela possuía em tão alta escala e que, sem paga e até
mesmo sem nem sequer fazer-se muito de rogada, de tão boa vontade me
transmitiu.
Assim,
todos sabem que o Saci é uma entidade infernal ou diabólica; mas se por acaso
se perguntasse a qualquer dos meus leitores, qual é a verdadeira forma dessa
entidade ou qual a sua missão neste mundo, eu duvido muito que um só houvesse
que pudesse responder a uma semelhante interrogação. Pois se não sabem, fiquem
agora sabendo, que o Saci que não sei bem porque, às vezes se costuma também
chamar de Saci-Pererê, é um mole-cote de uma cor negra extremamente retinta e
que nunca deixa de estar de carapuça vermelha. Muito alegre e zombeteiro, anda
sempre com os dentes arreganhados; e apesar de ter um pé só, como dizem
alguns que já o tem visto, vive
constantemente a dançar ou constantemente a pular. É sem dúvida nenhuma da
família rios diabos, e é por isso também que não há quem dele não tenha medo;
mas nunca me constou que levasse alguém para o inferno. E na realidade, a sua
missão e o seu prazer quase que não passa da de se divertir à nossa custa;
embora, como diabo que é, os seus divertimentos nunca deixam de ser mais ou
menos malignos.
De
todos os diabos é talvez o Saci o que menos habita o inferno ou o que mais
frequenta a terra; pois que é o único que mais vezes tem-se visto, e que por
isso, ao inverso dos outros, tem uma fisionomia própria e que é por todos muito
bem conhecida. Se, porém, é um diabo e, se vive constantemente no mundo, já se
sabe que por mais alegre e zombeteiro que seja, não havia de aí ficar para nos
fazer bem. E com efeito, a sua vida outra não é, senão a de nos andar sempre a
pregar sustos e a nos fazer todas as espécies de amofinações. Sem falar, porém,
nos cercos e nos medos que nos prega de noite nas estradas, aquilo que parece
estar fora de toda a dúvida, é que o lugar que o Saci de preferência procura
para não amofinar, é sempre o nosso quarto de dormir onde nos vem perturbar o
sono, mas sobretudo a nossa cozinha, onde ele quebra panelas, entorna ou
espalha os objetos que ali estão guardados e vira quase todos os vasos de boca
para baixo.
O
Saci, portanto, nada tem desse caráter feroz e essencialmente hórrido de quase
todos os outros diabos. Por isso talvez, nunca também tive muito grande medo do
Saci; e devo mesmo dizer que um dos meus maiores desejos foi o de laçá-lo com
um rosário; porque em criança parece que eu era muito mais ambicioso do que sou
hoje; e eu sabia que se conseguisse laçá-lo por este modo, poderia contar como
satisfeitos todos os meus desejos; visto ser coisa que nunca se pôs em dúvida,
que, laçado assim o Saci, ele não poderia por si mesmo se livrar, e para ser
solto nada havia que se lhe pedisse que imediatamente não desse ou executasse.
Ora, assim como o Saci, muitos outros diabos ainda existem que andam a vagar
pelo mundo, assim como muitas e de diversas qualidades são as almas perdidas,
que, desde meia-noite até o primeiro cantar do galo, vivem sempre a
percorrê-lo. Mas tudo isto é por demais sabido para que valha a pena repisá-lo.
Eu, pois, prefiro tratar de um gênero de seres desgraçados, de uma natureza
mais ou menos híbrida, que são homens e sombrações ao mesmo tempo, ou cujo
tormento é mesmo neste mundo ou nele já o principiam a sofrer ainda mesmo antes
que tenham perdido a vida ou que as suas almas se tenham separado dos seus
corpos. Deste gênero a primeira espécie de que me ocuparei, por ser de todas as
que tende cada vez mais a desaparecer é n da mula-sem-cabeça. E digo que esta
espécie tende cada vez mais a desaparecer, porque havendo cessado de fato a
proibição de lerem-se as escrituras santas, é tão grande a mudança que vai se
operando nas ideias populares sobre alguns pontos da religião, que hoje já
quase que ninguém existe que não saiba que o celibato sacerdotal não é de
instituição divina e que até mesmo de uma mulher já tenho ouvido repetir este
conselho ou este princípio de S. Paulo —. que é melhor casar do que abrasar-se.
E isto não só faz que o celibato clerical não se considere como lá muito
essencial à religião mas ainda e sobretudo, que vá de dia em dia diminuindo e
quase que desaparecendo o como que horror que ao povo
inspirava a violação desse mesmo
celibato. Antigamente, porém, não era assim; o caráter do padre era aos olhos
de todos por uma tal forma sagrado e a mais casta pureza tornava-se uma qualidade
tão essencial desse caráter, que a menor falha ou a menor mancha nessa
qualidade tornava-se igualmente um imenso sacrilégio ou um pecado
verdadeiramente horrendo. 0 padre, porém, era um homem; e a humanidade como
todos sabemos pode-se dizer que é um verdadeiro composto de fraquezas; e como,
pois, conciliar esse caráter assim tão santo com as quedas da fraqueza? 0 meio
que para isso se descobriu, foi muito simples; e torna-se extremamente curioso;
porque mais uma vez nos confirmando quanto é inventiva e sábia a imaginação do
povo, um semelhante meio vem, da maneira a mais evidente, nos mostrar que em um
tempo, em que a metafísica política ainda se achava tão atrasada e em que por
toda a parte e sem o menor contraste, só reinava o mais ferrenho despotismo, já
em relação aos padres, tinha o povo descoberto e posto em prática, essa tão
célebre e hoje tão conhecida máxima dos governos constitucionais de que o rei
não faz ou não deve fazer mal. Assim, segundo a opinião popular daquele tempo,
se um padre pecava; o culpado não era ele, mas sim a causa ou a vítima da sua
fraqueza; pois que sendo ele santo, se por acaso havia pecado, era unicamente
porque o diabo o havia tentado debaixo da figura de uma pessoa humana que lhe
havia servido de invólucro e por consequência, era sobre esse demônio encarnado
que devia recair todo o pecado ou toda a responsabilidade desse mesmo pecado.
Para isto, porém, era preciso, que se desse uma outra circunstância; e era —
que por uma nova fraqueza o padre não se condoesse da triste sorte da sua
vítima; e que, portanto, sobre ela, e sobre ela só, atirasse o peso de uma tão
tremenda responsabilidade. E era isto justamente o que todos eles faziam e por
meio de uma tão grande simplicidade que não havia nenhum que não quisesse ou
não pudesse empregar; e esse meio era o seguinte — o padre escrevia em uma tira
de papel o nome da pessoa que era preciso condenar; colocava esse papel no bico
do sapato do pé direito; e quando ia dizer missa, e que fazia as genuflexões do
estilo, de nada mais precisava do que, ao levantar a hóstia e o cálice, apertar
ou calcar com toda a força o papel que lá estava no sapato pois quanto mais o
calcasse, tanto mais desceria para o inferno a pessoa cujo nome ali estava
escrito; entretanto que tanto mais ficaria ele também limpo de todo o pecado e
puras as suas mãos para apresentar ao povo o santo dos santos.
Nem
ficava só nisto o castigo de um tão grande crime; pois que, se empurrada por
esta forma para o inferno, a alma da vítima tinha forçosamente de lá ir parar;
essa mesma vítima ou antes a causa ou objeto desse tão grande pecado, não
esperava pela morte para lhe sofrer as consequências; mas ré do mais infando de
todos os crimes e devendo, portanto, principiar a sofrer a sua punição aqui
mesmo neste mundo; desde que o pecado havia sido cometido, era imediatamente
condenada a vagar todas as noites pela terra, ou em certas noites pelo menos; e
aí vagar, não simplesmente em espírito ou debaixo da sua própria forma; mas
pelo contrário, debaixo da forma de um animal infecundo e inteiramente
desnaturado ou de um animal híbrido e hórrido ao mesmo tempo. E com efeito, a
forma desse animal, segundo sempre ouvi dizer, era a de uma mula-sem-cabeça.
Nem sobre este ponto nunca me constou, que houvesse qualquer discrepância ou que
se desse qualquer desacordo de opiniões. Se, porém, à vista de um consenso tão
unânime, não se pode deixar de acreditar e de afirmar, que a forma era, com
efeito, a de mula; aquilo, entretanto, que não se pode também deixar de
reconhecer, e que pela minha parte eu afirmo com toda a certeza, é que o rastro
nenhuma semelhança tinha com o das bestas; pois que eu mesmo muitas vezes o vi
quando corria os pastos da nossa fazenda; e posso garantir que esse rastro que
tantas vezes me mostraram e que me afirmaram ser o dela, era perfeitamente
idêntico a umas covinhas redondas e rasas que ainda hoje com muita facilidade
se encontram e que são feitas pelos Lagartos ou pelos tatus.
A
este mesmo gênero de que acabo de falar, pertencem ainda duas outras espécies
de que muito se fala, mas que são ao mesmo tempo muito pouco conhecidas; e são
as das bruxas e a dos lobisomens. Eu não sei qual é a forma peculiar das
bruxas; mas creio que essa forma nada tem de fixo; e que assim como dizem que
são as fadas, assim também as bruxas variam muito de forma e podem mesmo se
tornar mais ou menos invisíveis. Em todo caso, o que parece certo, é que elas
se alimentam de sangue das crianças ou pelo menos têm por ele uma grande
predileção. E tal é o motivo por que vêem-se muitas e muitas crianças que, sem
apresentarem sintomas mórbidos bem pronunciados, de repente começam e emagrecer
e a mostrar todos os característicos de uma anemia profunda; embora muitas
vezes isto possa ser também o efeito de um simples quebranto ou mau olhado,
cujo remédio, como todos sabem, é o de benzer-se a criança mediante certas
fórmulas que são unicamente conhecidas de certas velhas que disso fazem
profissão e onde à arruda cabe sem a menor dúvida um papel importantíssimo.
Este perigo, entretanto, de serem as crianças chupadas pelas bruxas, torna-se
muito maior quando as crianças ainda se conservam pagãs; mas para evitar um tal
perigo há um remédio, que é único, é verdade, mas que é ao mesmo tempo fácil e
infalível; e esse remédio é o de pôr na cabeceira da criança uma tesoura cm pé
e aberta; e quanto mais perto da criança tanto melhor.
Quanto aos lobisomens, esses eu
os conheço muito melhor; e posso, por consequência, afirmar, que um lobisomem é
uma espécie de alma penada que debaixo da forma de um cão preto, em certos dias
do ano, sempre de noite e quase sempre em sexta-feira, são condenados a vagar
pela terra ou a correr o seu fadário. E não duvido afirmar todas estas coisas;
porque, segundo me contou a Margarida, houve uma ocasião na Campanha, em que
ali apareceu um grande número deles, os quais incessantemente não faziam senão
rolar uma grande porção de barris em um beco estreito, deserto e um pouco
escuro que ali existia e que desce do largo da Matriz para os lados das Mercês
acrescentando ela ainda, que não só houve diversas pessoas que os chegaram a
ver; mas que até mesmo houve um sujeito tão ousado que se arriscou a atacar um
deles; o que foi, com efeito, uma ação verdadeiramente de Hércules; porque se
alguém chega a ser mordido pelo lobisomem, imediatamente torna-se também
lobisomem; entretanto que este é insensível e invulnerável às armas de fogo e
não pode ser ferido ou vencido senão a ferro frio. Eu não sei bem, se todos os
lobisomens são homens; mas o que eu sei (e até já vi um que a Margarida me mostrou)
é que há homens ainda vivos que já são lobisomens; sendo bem certo, que assim
como, se uma mulher tem 7 filhas seguidas, a mais velha torna-se bruxa; assim
também, se em vez de filhas, são sete filhos que ela os tem seguidos, o mais
velho torna-se infalivelmente lobisomem. E já que vi, como disse, um lobisomem,
vivo ou em carne e osso, eu quero dar ao leitor os seus principais sinais;
porque é de supor que, embora sem saber, mais de um também já tenha visto; e
com esses sinais que lhe vou dar, há de encontrar daqui em diante um número
muito maior. O lobisomem, desses pelo menos que andam entre nós e que portanto,
podem ser vistos de dia, é um homem mais ou menos macilento, de um caráter mais
ou menos macambúzio, e que, em certos dias do mês ou do ano, se encerram em
casa e como que desaparecera. Esse encerramento, que é mais ou menos periódico,
dá-se justamente no tempo em que eles têm de correr o seu fadário; o que, de
ordinário, tem lugar, como já disse, desde meia-noite até o primeiro cantar do
galo. Como, porém, o fadário de um lobisomem é o efeito de uma grande desgraça
ou um castigo terrivelmente mortificante; no dia ou nos dias que se seguem à
noite em que ele tem de correr, o pobre desgraçado não tem remédio senão
conservar-se encerrado e muitas vezes de cama, para poder descansar, reparar as
forças e disfarçar os vestígios de uma tão grande atormentação. Em suma, o que
de tudo isto se colige, é que infinito deve ser o número dos lobisomens que
andam a vagar por este mundo; pois que, mesmo sem falar em todos esses cuja
multidão deve ser enorme, mas que nos são mais ou menos invisíveis; pode-se,
sem o menor medo de errar, estabelecer como um princípio verdadeiramente
inconcusso, que se todos aqueles que sofrem de uma enfermidade chamada enxaqueca,
não são outros tantos lobisomens, eles, pelo menos, com os lobisomens se
parecem como um bicho a outro bicho ou como duas gotas d'água.
Se
quisesse a este respeito contar tudo quanto sei, seria, como se diz, um nunca
acabar. Este artigo, porém, já vai se tornando longo demais; e eu vou
terminá-lo, contando uma lenda sobre a Campanha que a Margarida me contou; e
bem assim, como é que os negros, ou antes, como é que a Margarida, que era uma
negra, explicava a variedade de cor na espécie humana.
A lenda é a seguinte: Junto do
Ribeirão de Santo Antônio que atravessa a Campanha e que divide a povoação em
duas partes muito desiguais, existe, ou existia naquele tempo, em um lugar que
não posso bem determinar mas que julgo ficava para os lados em que o ribeirão
sai da cidade, uma pedra que as enxurradas vão cada vez mais cobrindo de terra
e areia. Nos tempos primitivos da Campanha, dizia a Margarida, que essa pedra
ali não existia, mas que um dia uma mulher tendo tido um filho e querendo
ocultar a sua vergonha, levou a criança para ali; a atirou ao ribeirão; e
imediatamente sobre a criança se ergueu uma alta e vasta pedra. O fato, como
era de prever, surpreendeu e maravilhou a todos; mas ninguém achava para o caso
uma explicação satisfatória; até que, aparecendo na Campanha um missionário,
este, revelando ao povo o fato que até então se havia conservado inteiramente
oculto, declarou, que se aquela pedra não existia, e se agora ia cada vez mais
se abaixando, é porque debaixo dela havia uma enorme serpente que a pedra cada
vez mais esmagava ou calcava para o inferno; e que assim havia de ir
continuando sempre; até que sete anos depois que a Campanha fosse cidade, a
pedra desapareceria; e com ela se sumiria ou se subverteria a Campanha e sete
léguas em roda; sendo tudo substituído por um imenso abismo ou por um mar
talvez de enxofre, como esse que hoje ocupa o lugar em que outrora se sentou a
criminosa Sodoma. Esta profecia causou em mim por muito tempo uma muito grande
apreensão; mas felizmente, se nunca cheguei a perder o grande pesar que me
causava o desaparecimento daquela terra em que havia nascido e a que eu tanto
queria, pelo lado do perigo cheguei a tranquilizar-me completamente; porque
afinal lembrei-me, que estando marcado o tempo do desastre e, além disso, muito
bem determinada à área a que esse desastre se deveria estender, não era nada
difícil a mim ou a todo aquele que o quisesse, de evitar o perigo, pondo-se com
a devida antecedência bastante ao largo; ou até mesmo em algum lugar, donde,
como Nero contemplando o incêndio de Roma poderia contemplar esse incêndio ou
esse espetáculo infinitamente mais grandioso e horrífico.
A
profecia, contudo, parece que não realizou-se; porque a Campanha foi elevada a
cidade pela lei provincial n.º 163 de 9 de março de 1839, e se a pedra
sumiu-se, do que não tenho notícia; com toda a certeza eu sei e afirmo que a
Campanha ainda não subverteu-se mas que pelo contrário, lá se acha de pé e
continua como dantes a viver a sua vida ordinária. Entretanto, é ainda possível
que a profecia se realize; porque isto de profecias sempre são profecias: os
seus termos nunca devem ser tomados muito ao pé da letra; e assim, pode muito
bem ser, que, em vez de sete anos, o frade quisesse falar de sete semanas de
anos ou de sete séculos ou de sete semanas de séculos.
Quanto
ao modo como a Margarida explicava a variedade de cor na espécie humana; eis
aqui mais ou menos o que ela dizia:
Quando
Deus criou o mundo, criou o homem negro; mas, depois que o homem já se tinha
reproduzido e que a espécie já se tinha tornado numerosa; ou porque Deus se
tivesse se arrependido do que havia feito (isto aqui agora é que eu não me lembro
bem) ou porque os negros achassem que o cor branca era muito mais bonita do que
a preta; o que é certo é que, entre Deus e os homens houve um pacto (a
expressão é da Margarida) e Deus, lhes mostrando um rio que havia não sei onde,
lhes disse que todos os que atravessassem aquele rio, ficariam logo brancos;
mas, ao mesmo tempo, os preveniu de que a água era muito fria e a passagem perigosíssima.
Todos imediatamente correram para o rio; e, apalpando a água com as palmas das
mãos, verificaram que Deus não tinha mentido, e que a água era mais fria do que
o próprio gelo. O desânimo foi geral. Mas alguns que eram mais afoitos ou menos
friorentos, atiraram-se à água; e todos imediatamente afundaram; até que,
depois de mil esforços, e de uma luta horrível, alguns apareceram salvos na
outra margem e todos eles mais claros do que um alemão ou do que o mais claro
dos escandinavos. A vista daqueles homens assim tão claros fez inveja aos que
não tinham querido passar; e tal foi a violência do desejo que estes então
tiveram de ser brancos; que todos, ao mesmo tempo, e sem hesitar, correram para
o rio com o firme propósito de o atravessarem; mas, apenas tocaram a água com a
sola dos pés e que lhe chegaram a sentir o grande frio; de novo desanimaram; e
renunciaram para sempre à pretensão de serem brancos. E tal é a razão, porque,
tendo inteiramente preto todo o seu corpo, os negros, entretanto, têm as solas
dos pés e as palmas das mãos mais ou menos brancas; pois que, de todo o seu
corpo, foram, com efeito, as únicas partes que chegaram a tocar a tal água
milagrosa; mas cujo frio eles não se animaram a arrostar. E eu creio que a
Margarida não deixava de ter a este respeito alguma razão; porque naturalmente
adormentado ou rotineiro, o negro é ainda o mais friorento de todos os animais;
pois que sempre a tremer e a bater o queixo, nunca acha sol ou fogo que o
farte; e, enquanto ao sol ou ao fogo ele se aquece, ou dorme ou cochila.
BIBLIOGRAFIA
REZENDE, Francisco de Paula Ferreira de,. Minhas Recordações. Belo Horizonte. Imprensa Oficial, 1986.