sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Assombramento na Sexta-Feira Santa



– Está aí a Sinhá Anninha? – Perguntou a meia voz o Antônio Mathias, mulato gordo e alegre com fumaças de valentão, ao “tio” Ignacio, um velho que estava encostado ao umbral encardido de uma casinha amarela, com uma pintura fresca e oca.
– “Não”; respondeu amavelmente o outro – “mas não deve demora. Apeia um pouco. Parece que tá de saída, não espera o resto da festa, a procissão de hoje?”.
– “Não posso; a casa ficou sozinha e a criação anda lá a toa, sem trato direito”.
– “Pois é mió fica. Não presta a gente viaja na Sexta-feira Santa, e ainda de noite. Oia o que aconteceu com aquele moço do Retiro, o seu Chiquinho, tá lembrado? E daqui no Campo Grande é um pedaço de chão – três léguas...”.
– “Duas horas e meia, bem puxada... Mas não tem perigo. Quando tou neste piquirinha de confiança, espaiadô de sordado, e com essa cachorrinha paquera – a Giriza,  não tenho medo nem de sombração... E! Cueio!” gritou o mulato caipira, dando uma palmada forte no pescoço do cavalinho, fazendo-o estremecer debaixo dos arreios.
Depois de deixar um recado à Sinhá Anninha, Antõnio Mathias firmou-se nos estribos novos de metal, endireitou o chapéu na testa, despediu-se e deu de rédeas, picando com as esporas a anca do animal, que saiu numa andadura forçada, atravessando quase a galope a chapada cheia de gente.
Ganhou logo o alto do Mandú e tomou pela estrada batida e larga, sulcada fundo pelas tropas e carros de bois que vinham de São Gonçalo.
Ameaçava chuva e pelas alturas não aparecia nem uma estrela.
Quando descia o morro do Lavapés; já noite fechada, embalando vagarosamente pelo piquira, num ruído monótono de lombilho novo, voltaram-lhe as palavras do “tio” Ignacio: “Oia o que acontece com aquele moço do Retiro”... Era verdade; e ele sabia de tudo... Já estava meio arrependido de não ter ficado.
Daí a pouco atravessava o Mato Grosso e, já da outra banda, saiu-lhe a frente um curiango que o assustou. “E algum aviso...” cismou, descobrindo-se diante de duas cruzes que se levantavam dum lado do caminho, meio apagadas na escuridão.
– “Deve sê tarde, e hoje a passagêra não apita pra gente sabe as horas...” pensou o caipira, erguendo os olhos para o céu coberto de nuvens negras.
No espigão, onde as estradas se bifurcavam, pegou ao menos batida, a do Campo Grande, e, enquanto o animal, num trote largo, ia caminhando banhado de suor, ele, com a ideia presa na imagem da morena dengosa da chapada, rompeu a cantar em voz alta, rasgando o silêncio daqueles lugares ermos e tristes:

Dentro do seu pensamento
Sei que vive um coração...


A cidade, apesar da chuva que ameaçava cair, estrava bastante animada com os festejos e tinha um movimento desusado e alegre.
As ruas principais, por onde devia passar o Esquife, foram varridas e, em alguns pontos, estavam juncadas de folhas verdes de laranjeira.
Das janelas das casas mais importantes, alumiadas com lanterninhas de vidro e de papel, pendiam colchas caras e bonitas, listadas de cores variadas.
Os sinos conservavam-se mudos e as matracas ressoavam estalando irritantes na meia escuridão do templo.
O povo esperava o saimento da procissão do Senhor Morto, aglomerando-se dentro e fora da igreja, na farmácia e nas vendas próximas, aos magotes pelas esquinas e debaixo das duas enormes casuarinas – guardas gigantes da porta da Matriz.
A chuva desabou formidável sobre a cidade acompanhada de relâmpagos e trovões, justamente na hora em que saiam as primeiras alas das irmandades religiosas, impedindo assim o desfile da procissão do Enterro...


– “Nossa Senhora de Aparecida!” exclamou Antônio Mathias, meio engasgado de susto, encolhido nos arreios e de cabelos eriçados de medo. Os seus olhos, muito arregalados, viam um vulto branco, semelhante a uma rede de defunto, suspenso no meio da cova, que um relâmpago mais forte acaba de iluminar, através das árvores da Serrinha.
O cavaleiro estremeceu, estacou de súbito, virou de repente para trás, disparado, e teria atirado o mulato por terra se ele não fosse o peão de fama que era.
Somente ao apanhar de novo a estrada larga de São Gonçalo, acompanhado da cachorrinha, que gania arrepiada, com a cauda entre as pernas, somente de volta para a cidade é que ele percebera que o chapéu tinha ficado. E atreveu-se então a olhar para o lugar de onde correra apavorado, respirando com mais alívio e apeando para arranjar as presas o lombilho que saia pelas ancas do animal.
Na descida, todo molhado, com os queixos cerrados de frio, quando procurou a faca para fazer um cigarro, não a encontrou na bainha e resmungou contrariado: “Diabo! Não é que perdi também a pareiada...” Lembrou-se então que tinha atravessado entre os dentes a lâmina de aço, porque sempre ouvira dizer que era assim que se esconjuravam assombrações. E ela se lhe tinha escapado dos dentes na correria precipitada.
De vez em quando o caipira meneava tristemente a cabeça: “Ta aí... Bem o ‘tio’ Ignacio falou...”.
E horas depois, quando os primeiros galos principiavam a cantar, ele, sem chapéu e com receios de que a Sinhá Anninha zombasse da sua coragem afamada, batia envergonhado na porta da casinha amarela da chapada...
[...]
Ninguém teria acreditado na história de “sombração” do Antônio Mathias, se algum tempo depois, quando o fazendeiro do Campo Grande mandou consertar os caminhos para os carros da fazendo, não tivesse encontrado enterrado na cova da Serrinha, junto da pedra, quase na porteira, um velho esqueleto humano, já a desfazer-se em pó... 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Preta Margarida e sua memória

Minhas recordações é uma produção do campanhense Francisco de Paula Ferreira de Rezende. Sua recordação de infância traz as lembranças de sua babá, preta Margarida que conta lendas interessantes sobre a cidade, postaremos o capítulo referente á preta Margarida. 

Capítulo X

O autor narra à preta Margarida as peripécias da sua viagem à Corte e a preta Margarida o escuta maravilhada. Quem era a preta Margarida. As histórias que ela contava e as muitas coisas que ensinava. Para bem se conhecer a humanidade, não basta conhecer-lhe a casca. Um pouco de filosofia e da alta história é a necessário; mas não se esqueça, o povo, os preconceitos e até mesmo as superstições absurdas. O saci-perêrê e a mula-sem-cabeça. Bruxas e lobisomens. Os doentes de enxaqueca e os lobisomens. Uma lenda curiosa sobre a Campanha e como é que a preta Margarida explicava as diferenças de cor na espécie humana.

Ainda no tempo em que fui à Corte muito poucos eram os homens da Campanha, que a não serem tropeiros ou comerciantes, tivessem feito essa viagem; e se isto se dava com os homens, quanto mais com as mulheres ou com os meninos!
Eu, entretanto, que ainda não tinha 8 anos, já havia viajado 138 léguas de ida e volta; tinha visto muitos rios, muitas vilas; tinha ouvido o ribombar da artilharia; tinha andado sobre o mar; tinha entrado em um navio de guerra; e para tudo dizer em uma palavra, eu tinha ido à Corte. Eu, pois, não só não era um menino como qualquer outro; mas poderia mesmo ser considerado como um homem que muito mais do que os outros já bem sabia quanto este nosso mundo era grande.
Para quem, porém, este novo Fernão Mendes ou este novo e tão pequeno Marco Polo tomava proporções ainda mais gigantescas ou a quem ele deixava, digamos assim, completamente embasbacada com a narração maravilhosa da sua maravilhosa viagem, era uma preta escrava, que meu bisavô Gaspar havia dado à minha mãe quando eram ambas pequenas; que foi por isso a primeira cara negra com que me acostumei; e de quem desde então eu quase nunca me desprendia; porque era ela de muito bom gênio; e esse gênio era ao mesmo tempo tão igual, que apesar de um pouco aperreada com minha mãe, nunca tinha, por assim dizer, um só momento de burros nem mesmo de um simples enfado; mas contente sempre e tendo muito boa voz, sempre que podia, cantava; e se não podia, conversava ou contava histórias. Esta preta que era baixa e retinta e que trazia estampado no rosto a alegria e a bondade que lhe iam pela alma, tinha sido batizada com o bonito nome de Margarida. Mas ou porque o achasse feio, ou talvez antes, porque muito mais do que achasse que valia o nome da mãe de Deus, foi crismada com o nome de Ana; e por isso, ficou desde então se chamando Ana Margarida.
Nem se estranhe que assim me ocupe, e com uma tão grande e quase que excessiva minuciosidade de uma simples preta escrava; porque se aqui não omito os meus parentes mais ou menos sobres e se de preferência procuro falar de gente e de coisas grandes, contudo o que principalmente me dirige a pena, é a lembrança daqueles a quem mais devo ou que mais me amaram neste mundo; e esta pobre e alegre negra tanto me amou, tantas vezes me teve ao colo, que ainda mesmo que eu quisesse, não poderia jamais dela me esquecer. Outra circunstância, porém, existe ainda, que faz com que eu não pudesse deixar de mencioná-la aqui; e é, que um dos pontos do meu programa é o deixar registrado neste escrito o nome de todos os meus mestres; e ainda que nunca professasse de cadeira, a Margarida sabia tanta coisa e tanta coisa me ensinou, que ela não pode deixar de entrar na classe dos meus melhores professores. E isto digo; porque, para bem conhecer-se a humanidade, não é bastante que se lhe conheça unicamente a casca ou que se tenham algumas noções de filosofia e alta história; mas ainda preciso, que igualmente se conheçam as opiniões do povo, os seus prejuízos e até mesmo as suas absurdas superstições. E em todas estas matérias, a Margarida não era uma simples curiosa ou uma simples amadora; mas era, pelo contrário, uma verdadeira professora ou como tal deve ser e, com mente indispensável que tivesse título ou aula aberta; assim como o divino Sócrates nunca teve a sua aula em lugar algum determinado, mas ensinava por toda parte ou onde e quando achava discípulos; e Sócrates, como todos sabem, é o primeiro de todos os professores que a humanidade tem tido.
Com isto não quero dizer, que uma tal aprendizagem e que sendo sobretudo feita em uma idade tão tenra como era a minha, não deixasse de ter os seus inconvenientes; pois que, além de ser isso uma dessas cosias que a razão nos mostra, eu ainda sei, e o sei muito bem, que para mim os teve, com efeito, e de uma natureza quase irremediável. Assim, eu duvido muito, que haja muita gente, que tenha um espírito, não direi tão são; porque, se é minha opinião que não há ninguém que não tenha a sua veio de doido e que este mundo não passa de uma verdadeira casa de “orates” em ponto muito grande; às vezes quase que chego a crer que, pela parte que me toca, eu estou quase que a entrar para a classe dos loucos varridos ou daqueles cuja loucura não está coberta com o pó ou com as aparências de uma tal ou qual razão; mas eu direi, que tenha um espírito tão livre e tão completamente despreocupado como se acha atualmente o meu.
Pois bem; ainda hoje, não só extremamente me desagrada, por exemplo, a presença repentina de um beija-flor de rabo branco que aprendi em menino ser um núncio, de más novas; mas, sobre-tudo, quando ouço um cão uivar ou uma coruja piar, que também aprendi ser agouro infalível de alguma morte, por mais que me queira fazer de duro, eu não posso deixar de sentir imediatamente um estremecimento involuntário e que me deixa mais ou menos apreensivo por algum tempo. E, no entretanto, eu sei perfeitamente pela razão e muito mais ainda pela minha própria experiência, que tudo isto não passa de uma verdadeira loucura.
Mas enfim, se um tal ensino teve para mim inconvenientes maus, a intenção foi boa ou não foi má; e, em todo o caso, graças à minha boa Margarida, sei hoje tantas coisas, que a maior parte dos doutores de borla e capelo não sabem nem sequer talvez a metade. E para que não se diga, que exagero ou que procuro dar à minha mestra um mérito muito maior do que poderia ter, vou dar aqui alguns espécimes desses conhecimentos que ela possuía em tão alta escala e que, sem paga e até mesmo sem nem sequer fazer-se muito de rogada, de tão boa vontade me transmitiu.

Assim, todos sabem que o Saci é uma entidade infernal ou diabólica; mas se por acaso se perguntasse a qualquer dos meus leitores, qual é a verdadeira forma dessa entidade ou qual a sua missão neste mundo, eu duvido muito que um só houvesse que pudesse responder a uma semelhante interrogação. Pois se não sabem, fiquem agora sabendo, que o Saci que não sei bem porque, às vezes se costuma também chamar de Saci-Pererê, é um mole-cote de uma cor negra extremamente retinta e que nunca deixa de estar de carapuça vermelha. Muito alegre e zombeteiro, anda sempre com os dentes arreganhados; e apesar de ter um pé só, como dizem
alguns que já o tem visto, vive constantemente a dançar ou constantemente a pular. É sem dúvida nenhuma da família rios diabos, e é por isso também que não há quem dele não tenha medo; mas nunca me constou que levasse alguém para o inferno. E na realidade, a sua missão e o seu prazer quase que não passa da de se divertir à nossa custa; embora, como diabo que é, os seus divertimentos nunca deixam de ser mais ou menos malignos.

De todos os diabos é talvez o Saci o que menos habita o inferno ou o que mais frequenta a terra; pois que é o único que mais vezes tem-se visto, e que por isso, ao inverso dos outros, tem uma fisionomia própria e que é por todos muito bem conhecida. Se, porém, é um diabo e, se vive constantemente no mundo, já se sabe que por mais alegre e zombeteiro que seja, não havia de aí ficar para nos fazer bem. E com efeito, a sua vida outra não é, senão a de nos andar sempre a pregar sustos e a nos fazer todas as espécies de amofinações. Sem falar, porém, nos cercos e nos medos que nos prega de noite nas estradas, aquilo que parece estar fora de toda a dúvida, é que o lugar que o Saci de preferência procura para não amofinar, é sempre o nosso quarto de dormir onde nos vem perturbar o sono, mas sobretudo a nossa cozinha, onde ele quebra panelas, entorna ou espalha os objetos que ali estão guardados e vira quase todos os vasos de boca para baixo.

O Saci, portanto, nada tem desse caráter feroz e essencialmente hórrido de quase todos os outros diabos. Por isso talvez, nunca também tive muito grande medo do Saci; e devo mesmo dizer que um dos meus maiores desejos foi o de laçá-lo com um rosário; porque em criança parece que eu era muito mais ambicioso do que sou hoje; e eu sabia que se conseguisse laçá-lo por este modo, poderia contar como satisfeitos todos os meus desejos; visto ser coisa que nunca se pôs em dúvida, que, laçado assim o Saci, ele não poderia por si mesmo se livrar, e para ser solto nada havia que se lhe pedisse que imediatamente não desse ou executasse. Ora, assim como o Saci, muitos outros diabos ainda existem que andam a vagar pelo mundo, assim como muitas e de diversas qualidades são as almas perdidas, que, desde meia-noite até o primeiro cantar do galo, vivem sempre a percorrê-lo. Mas tudo isto é por demais sabido para que valha a pena repisá-lo. Eu, pois, prefiro tratar de um gênero de seres desgraçados, de uma natureza mais ou menos híbrida, que são homens e sombrações ao mesmo tempo, ou cujo tormento é mesmo neste mundo ou nele já o principiam a sofrer ainda mesmo antes que tenham perdido a vida ou que as suas almas se tenham separado dos seus corpos. Deste gênero a primeira espécie de que me ocuparei, por ser de todas as que tende cada vez mais a desaparecer é n da mula-sem-cabeça. E digo que esta espécie tende cada vez mais a desaparecer, porque havendo cessado de fato a proibição de lerem-se as escrituras santas, é tão grande a mudança que vai se operando nas ideias populares sobre alguns pontos da religião, que hoje já quase que ninguém existe que não saiba que o celibato sacerdotal não é de instituição divina e que até mesmo de uma mulher já tenho ouvido repetir este conselho ou este princípio de S. Paulo —. que é melhor casar do que abrasar-se. E isto não só faz que o celibato clerical não se considere como lá muito essencial à religião mas ainda e sobretudo, que vá de dia em dia diminuindo e quase que desaparecendo o como que horror que ao povo
inspirava a violação desse mesmo celibato. Antigamente, porém, não era assim; o caráter do padre era aos olhos de todos por uma tal forma sagrado e a mais casta pureza tornava-se uma qualidade tão essencial desse caráter, que a menor falha ou a menor mancha nessa qualidade tornava-se igualmente um imenso sacrilégio ou um pecado verdadeiramente horrendo. 0 padre, porém, era um homem; e a humanidade como todos sabemos pode-se dizer que é um verdadeiro composto de fraquezas; e como, pois, conciliar esse caráter assim tão santo com as quedas da fraqueza? 0 meio que para isso se descobriu, foi muito simples; e torna-se extremamente curioso; porque mais uma vez nos confirmando quanto é inventiva e sábia a imaginação do povo, um semelhante meio vem, da maneira a mais evidente, nos mostrar que em um tempo, em que a metafísica política ainda se achava tão atrasada e em que por toda a parte e sem o menor contraste, só reinava o mais ferrenho despotismo, já em relação aos padres, tinha o povo descoberto e posto em prática, essa tão célebre e hoje tão conhecida máxima dos governos constitucionais de que o rei não faz ou não deve fazer mal. Assim, segundo a opinião popular daquele tempo, se um padre pecava; o culpado não era ele, mas sim a causa ou a vítima da sua fraqueza; pois que sendo ele santo, se por acaso havia pecado, era unicamente porque o diabo o havia tentado debaixo da figura de uma pessoa humana que lhe havia servido de invólucro e por consequência, era sobre esse demônio encarnado que devia recair todo o pecado ou toda a responsabilidade desse mesmo pecado. Para isto, porém, era preciso, que se desse uma outra circunstância; e era — que por uma nova fraqueza o padre não se condoesse da triste sorte da sua vítima; e que, portanto, sobre ela, e sobre ela só, atirasse o peso de uma tão tremenda responsabilidade. E era isto justamente o que todos eles faziam e por meio de uma tão grande simplicidade que não havia nenhum que não quisesse ou não pudesse empregar; e esse meio era o seguinte — o padre escrevia em uma tira de papel o nome da pessoa que era preciso condenar; colocava esse papel no bico do sapato do pé direito; e quando ia dizer missa, e que fazia as genuflexões do estilo, de nada mais precisava do que, ao levantar a hóstia e o cálice, apertar ou calcar com toda a força o papel que lá estava no sapato pois quanto mais o calcasse, tanto mais desceria para o inferno a pessoa cujo nome ali estava escrito; entretanto que tanto mais ficaria ele também limpo de todo o pecado e puras as suas mãos para apresentar ao povo o santo dos santos.

Nem ficava só nisto o castigo de um tão grande crime; pois que, se empurrada por esta forma para o inferno, a alma da vítima tinha forçosamente de lá ir parar; essa mesma vítima ou antes a causa ou objeto desse tão grande pecado, não esperava pela morte para lhe sofrer as consequências; mas ré do mais infando de todos os crimes e devendo, portanto, principiar a sofrer a sua punição aqui mesmo neste mundo; desde que o pecado havia sido cometido, era imediatamente condenada a vagar todas as noites pela terra, ou em certas noites pelo menos; e aí vagar, não simplesmente em espírito ou debaixo da sua própria forma; mas pelo contrário, debaixo da forma de um animal infecundo e inteiramente desnaturado ou de um animal híbrido e hórrido ao mesmo tempo. E com efeito, a forma desse animal, segundo sempre ouvi dizer, era a de uma mula-sem-cabeça. Nem sobre este ponto nunca me constou, que houvesse qualquer discrepância ou que se desse qualquer desacordo de opiniões. Se, porém, à vista de um consenso tão unânime, não se pode deixar de acreditar e de afirmar, que a forma era, com efeito, a de mula; aquilo, entretanto, que não se pode também deixar de reconhecer, e que pela minha parte eu afirmo com toda a certeza, é que o rastro nenhuma semelhança tinha com o das bestas; pois que eu mesmo muitas vezes o vi quando corria os pastos da nossa fazenda; e posso garantir que esse rastro que tantas vezes me mostraram e que me afirmaram ser o dela, era perfeitamente idêntico a umas covinhas redondas e rasas que ainda hoje com muita facilidade se encontram e que são feitas pelos Lagartos ou pelos tatus.

A este mesmo gênero de que acabo de falar, pertencem ainda duas outras espécies de que muito se fala, mas que são ao mesmo tempo muito pouco conhecidas; e são as das bruxas e a dos lobisomens. Eu não sei qual é a forma peculiar das bruxas; mas creio que essa forma nada tem de fixo; e que assim como dizem que são as fadas, assim também as bruxas variam muito de forma e podem mesmo se tornar mais ou menos invisíveis. Em todo caso, o que parece certo, é que elas se alimentam de sangue das crianças ou pelo menos têm por ele uma grande predileção. E tal é o motivo por que vêem-se muitas e muitas crianças que, sem apresentarem sintomas mórbidos bem pronunciados, de repente começam e emagrecer e a mostrar todos os característicos de uma anemia profunda; embora muitas vezes isto possa ser também o efeito de um simples quebranto ou mau olhado, cujo remédio, como todos sabem, é o de benzer-se a criança mediante certas fórmulas que são unicamente conhecidas de certas velhas que disso fazem profissão e onde à arruda cabe sem a menor dúvida um papel importantíssimo. Este perigo, entretanto, de serem as crianças chupadas pelas bruxas, torna-se muito maior quando as crianças ainda se conservam pagãs; mas para evitar um tal perigo há um remédio, que é único, é verdade, mas que é ao mesmo tempo fácil e infalível; e esse remédio é o de pôr na cabeceira da criança uma tesoura cm pé e aberta; e quanto mais perto da criança tanto melhor.

Quanto aos lobisomens, esses eu os conheço muito melhor; e posso, por consequência, afirmar, que um lobisomem é uma espécie de alma penada que debaixo da forma de um cão preto, em certos dias do ano, sempre de noite e quase sempre em sexta-feira, são condenados a vagar pela terra ou a correr o seu fadário. E não duvido afirmar todas estas coisas; porque, segundo me contou a Margarida, houve uma ocasião na Campanha, em que ali apareceu um grande número deles, os quais incessantemente não faziam senão rolar uma grande porção de barris em um beco estreito, deserto e um pouco escuro que ali existia e que desce do largo da Matriz para os lados das Mercês acrescentando ela ainda, que não só houve diversas pessoas que os chegaram a ver; mas que até mesmo houve um sujeito tão ousado que se arriscou a atacar um deles; o que foi, com efeito, uma ação verdadeiramente de Hércules; porque se alguém chega a ser mordido pelo lobisomem, imediatamente torna-se também lobisomem; entretanto que este é insensível e invulnerável às armas de fogo e não pode ser ferido ou vencido senão a ferro frio. Eu não sei bem, se todos os lobisomens são homens; mas o que eu sei (e até já vi um que a Margarida me mostrou) é que há homens ainda vivos que já são lobisomens; sendo bem certo, que assim como, se uma mulher tem 7 filhas seguidas, a mais velha torna-se bruxa; assim também, se em vez de filhas, são sete filhos que ela os tem seguidos, o mais velho torna-se infalivelmente lobisomem. E já que vi, como disse, um lobisomem, vivo ou em carne e osso, eu quero dar ao leitor os seus principais sinais; porque é de supor que, embora sem saber, mais de um também já tenha visto; e com esses sinais que lhe vou dar, há de encontrar daqui em diante um número muito maior. O lobisomem, desses pelo menos que andam entre nós e que portanto, podem ser vistos de dia, é um homem mais ou menos macilento, de um caráter mais ou menos macambúzio, e que, em certos dias do mês ou do ano, se encerram em casa e como que desaparecera. Esse encerramento, que é mais ou menos periódico, dá-se justamente no tempo em que eles têm de correr o seu fadário; o que, de ordinário, tem lugar, como já disse, desde meia-noite até o primeiro cantar do galo. Como, porém, o fadário de um lobisomem é o efeito de uma grande desgraça ou um castigo terrivelmente mortificante; no dia ou nos dias que se seguem à noite em que ele tem de correr, o pobre desgraçado não tem remédio senão conservar-se encerrado e muitas vezes de cama, para poder descansar, reparar as forças e disfarçar os vestígios de uma tão grande atormentação. Em suma, o que de tudo isto se colige, é que infinito deve ser o número dos lobisomens que andam a vagar por este mundo; pois que, mesmo sem falar em todos esses cuja multidão deve ser enorme, mas que nos são mais ou menos invisíveis; pode-se, sem o menor medo de errar, estabelecer como um princípio verdadeiramente inconcusso, que se todos aqueles que sofrem de uma enfermidade chamada enxaqueca, não são outros tantos lobisomens, eles, pelo menos, com os lobisomens se parecem como um bicho a outro bicho ou como duas gotas d'água.

Se quisesse a este respeito contar tudo quanto sei, seria, como se diz, um nunca acabar. Este artigo, porém, já vai se tornando longo demais; e eu vou terminá-lo, contando uma lenda sobre a Campanha que a Margarida me contou; e bem assim, como é que os negros, ou antes, como é que a Margarida, que era uma negra, explicava a variedade de cor na espécie humana.

A lenda é a seguinte: Junto do Ribeirão de Santo Antônio que atravessa a Campanha e que divide a povoação em duas partes muito desiguais, existe, ou existia naquele tempo, em um lugar que não posso bem determinar mas que julgo ficava para os lados em que o ribeirão sai da cidade, uma pedra que as enxurradas vão cada vez mais cobrindo de terra e areia. Nos tempos primitivos da Campanha, dizia a Margarida, que essa pedra ali não existia, mas que um dia uma mulher tendo tido um filho e querendo ocultar a sua vergonha, levou a criança para ali; a atirou ao ribeirão; e imediatamente sobre a criança se ergueu uma alta e vasta pedra. O fato, como era de prever, surpreendeu e maravilhou a todos; mas ninguém achava para o caso uma explicação satisfatória; até que, aparecendo na Campanha um missionário, este, revelando ao povo o fato que até então se havia conservado inteiramente oculto, declarou, que se aquela pedra não existia, e se agora ia cada vez mais se abaixando, é porque debaixo dela havia uma enorme serpente que a pedra cada vez mais esmagava ou calcava para o inferno; e que assim havia de ir continuando sempre; até que sete anos depois que a Campanha fosse cidade, a pedra desapareceria; e com ela se sumiria ou se subverteria a Campanha e sete léguas em roda; sendo tudo substituído por um imenso abismo ou por um mar talvez de enxofre, como esse que hoje ocupa o lugar em que outrora se sentou a criminosa Sodoma. Esta profecia causou em mim por muito tempo uma muito grande apreensão; mas felizmente, se nunca cheguei a perder o grande pesar que me causava o desaparecimento daquela terra em que havia nascido e a que eu tanto queria, pelo lado do perigo cheguei a tranquilizar-me completamente; porque afinal lembrei-me, que estando marcado o tempo do desastre e, além disso, muito bem determinada à área a que esse desastre se deveria estender, não era nada difícil a mim ou a todo aquele que o quisesse, de evitar o perigo, pondo-se com a devida antecedência bastante ao largo; ou até mesmo em algum lugar, donde, como Nero contemplando o incêndio de Roma poderia contemplar esse incêndio ou esse espetáculo infinitamente mais grandioso e horrífico.

A profecia, contudo, parece que não realizou-se; porque a Campanha foi elevada a cidade pela lei provincial n.º 163 de 9 de março de 1839, e se a pedra sumiu-se, do que não tenho notícia; com toda a certeza eu sei e afirmo que a Campanha ainda não subverteu-se mas que pelo contrário, lá se acha de pé e continua como dantes a viver a sua vida ordinária. Entretanto, é ainda possível que a profecia se realize; porque isto de profecias sempre são profecias: os seus termos nunca devem ser tomados muito ao pé da letra; e assim, pode muito bem ser, que, em vez de sete anos, o frade quisesse falar de sete semanas de anos ou de sete séculos ou de sete semanas de séculos.

Quanto ao modo como a Margarida explicava a variedade de cor na espécie humana; eis aqui mais ou menos o que ela dizia:


Quando Deus criou o mundo, criou o homem negro; mas, depois que o homem já se tinha reproduzido e que a espécie já se tinha tornado numerosa; ou porque Deus se tivesse se arrependido do que havia feito (isto aqui agora é que eu não me lembro bem) ou porque os negros achassem que o cor branca era muito mais bonita do que a preta; o que é certo é que, entre Deus e os homens houve um pacto (a expressão é da Margarida) e Deus, lhes mostrando um rio que havia não sei onde, lhes disse que todos os que atravessassem aquele rio, ficariam logo brancos; mas, ao mesmo tempo, os preveniu de que a água era muito fria e a passagem perigosíssima. Todos imediatamente correram para o rio; e, apalpando a água com as palmas das mãos, verificaram que Deus não tinha mentido, e que a água era mais fria do que o próprio gelo. O desânimo foi geral. Mas alguns que eram mais afoitos ou menos friorentos, atiraram-se à água; e todos imediatamente afundaram; até que, depois de mil esforços, e de uma luta horrível, alguns apareceram salvos na outra margem e todos eles mais claros do que um alemão ou do que o mais claro dos escandinavos. A vista daqueles homens assim tão claros fez inveja aos que não tinham querido passar; e tal foi a violência do desejo que estes então tiveram de ser brancos; que todos, ao mesmo tempo, e sem hesitar, correram para o rio com o firme propósito de o atravessarem; mas, apenas tocaram a água com a sola dos pés e que lhe chegaram a sentir o grande frio; de novo desanimaram; e renunciaram para sempre à pretensão de serem brancos. E tal é a razão, porque, tendo inteiramente preto todo o seu corpo, os negros, entretanto, têm as solas dos pés e as palmas das mãos mais ou menos brancas; pois que, de todo o seu corpo, foram, com efeito, as únicas partes que chegaram a tocar a tal água milagrosa; mas cujo frio eles não se animaram a arrostar. E eu creio que a Margarida não deixava de ter a este respeito alguma razão; porque naturalmente adormentado ou rotineiro, o negro é ainda o mais friorento de todos os animais; pois que sempre a tremer e a bater o queixo, nunca acha sol ou fogo que o farte; e, enquanto ao sol ou ao fogo ele se aquece, ou dorme ou cochila. 

BIBLIOGRAFIA

REZENDE, Francisco de Paula Ferreira de,. Minhas Recordações. Belo Horizonte. Imprensa Oficial, 1986.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dr. Borges Netto, primeira parte

Existe por aí bons escritores, pessoas que marcaram por grandes feitos. Campanha é uma cidade com grandes nomes, nomes que representa nossa comunidade no Brasil e no mundo, exemplos mais comuns são: Vital Brasil e Maria Martins. Entre muitos, um que vamos abrir espaço  é para o ilustre Dr. Borges Netto. Sobre sua vida conseguimos sua trajetória de vida escrita pelo Sr. Leonardo Lima no seu trabalho BIOGRAFIAS DE ILUSTRES CAMPANHENSES.

"JOSÉ BORGES NETTO, Campanhense, advogado, escritor, jornalista. Era filho de Cristiano Borges da Costa e Ana Filomena de Jesus, nascido em 24/05/1892.Seus primeiros estudos foram feitos no bairro rural de Campo Grande, onde nasceu e sua primeira professora no primário foi Maria Joaquina. Já os estudos de humanidades foram no Ginásio Santo Antonio, Externato Jonas Olinto e no ginásio de Silvestre Ferraz (hoje Carmo de Minas). Em seguida matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, terminando o curso na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, para onde se havia transferido. Em 1910 fez parte do Grêmio União Teatral Campanhense. Em 25/06/1922 funda junto com uma plêiade de pessoas caridosas, a Conferência Santo Antônio, entidade filantrópica de auxílio aos pobres da cidade. Junto com diversos intelectuais fundou o Instituto Historio e Geográfico da Campanha, ocupando o cargo de secretário. Casado com Sara de Azevedo Borges. Fez parte do corpo docente do Colégio Sion. Redator e proprietário do “Templário” (1936) jornal quinzenal de literatura, noticioso, humorístico e ilustrado, tendo como principais colaboradores os senhores Dr. José Braz Cesarino, Nicolau Tolentino de Morais Navarro e o poeta Plínio Motta. Esteve algum tempo na chefia da redação do jornal “Colombo” (2ª fase), de 1917 a 1924, jornal este de propriedade de Dr. Jefferson de Oliveira. Adquiriu com Dr. Nicolau Tolentino Navarro e Amador Horta uma oficina gráfica e fundou o jornal “Colombo” (2º do nome), tornando-se diretor, enquanto Dr. Nicolau Navarro figurava como redator e o senhor Francisco dos Santos como editor. Foi Delegado de Polícia por diversos anos. Foi o último Agente Executivo da cidade tendo ocupado o cargo no período de 15/01/1929 a 07/12/1930. Depois entrou a era dos prefeitos e nessa condição ocupou o cargo de 12/01/1936 a 15/07/1936. Foi vereador no período de 01/02/1951 a 31/01/1955 e também nos períodos de 01/02/1959 a 31/01/1963; de 01/02/1963 a 31/01/1967. Foi o responsável maior pela transferência da Academia Sul-Mineira de Letras de Cambuquira para Campanha. Autor do livro “No Silêncio”, que foi prefaciado pelo grande escritor Monteiro Lobato, tendo recebido de “A Revista do Brasil” grande elogio. Além desse livro é autor de peças teatrais “Marimbondos na Cidade”, “Encrenca na Zona”, “Esposa Solteira” e “Cenas Ligeiras”. Também autor dos opúsculos “Oração de Fé”, “A Esponjeira” e “Noite de Natal”. Publicou durante dois anos a excelente revista “Alvorada” (1928 e 1930) que era mensal, literária, humorística e ilustrada, tendo como colaboradores: Dr. Nicolau Tolentino de Morais Navarro, Eduardo Nogueira, Luiz Veríssimo Paes, Luiz Andrés Júnior, Rubens Rezende e Thomaz de Aquino Araújo. Em 1932 foi escolhido para integrar a Junta Regional da Liga Eleitoral Católica, sendo designado Secretário e em 15/07/1934 é eleito Secretário-Geral da mesma Junta. Em 17/05/1927 é eleito vice-presidente da Câmara de Vereadores. Um dos fundadores do jornal “Minas do Sul” (2º jornal de mesmo nome), sendo seu diretor (1935 – 1936). Os outros fundadores foram: Dr. Jefferson de Oliveira, Dr. Nicolau Tolentino de Morais Navarro e Amador Horta. Muito colaborou com o jornal “Sul de Minas” (segundo jornal de mesmo nome) e que circulou de 6/6/1936 a junho/1943, fundado por Dr. Nicolau Tolentino de Morais Navarro e cujo gerente foi Carlos Batista de Mello. Em 1936 é eleito Presidente do Jóquei Clube Campanhense (prado que ele e outros companheiros construíram). Foi Prefeito da cidade de 12/01/1936 a 15/07/1936 (nomeado por Benedito Valadares). Foi Delegado de Polícia (nomeado em março de 1926), Promotor interino, Inspetor Escolar. Na década de 1940 organizou um conjunto de serenatas composto por Aldo Garotti, Vinícius Vilhena de Morais, Sara de Azevedo Borges (sua esposa) e por ele mesmo que tocava flauta. Em 1947 trouxe para Campanha uma agência do Banco Itajubá, tornando-se Gerente da Agência. Faleceu, aos 93 anos, no dia 17/2/1985. É com enorme justiça nome de Rua em Campanha. Para saber mais, consultar: “Os Correios na História da Campanha”, de Thomaz de Aquino Araújo e Carmegildo Filgueiras, 1973 e “Biografias” no Centro de Estudos Mons. Lefort; “A Campanha”, jornal 718 de 10/07/1918; 930 de 14/03/1926."

LIMA, Leonardo Biografias De Ilustres Campanhenses. Acervo: CDECML - Campanha MG


Imagem ilustrativa do livro de sua autoria No Silêncio... Contos / Acervo: CDECML


Livro No Silêncio... Contos
Editores Pocai & Comp. São Paulo 1918 
Prefácio Dr. Monteiro Lobato
Ilustrações de B.B. Barreto


Ao Dr. Flavio C. Guimarães
O Necrologio do Oliveira

"Quem é que anda aí? Quem é?
Era meia noite. A chuva, grossa, caia incessante. Goteiras estalavam nas pedras e a água, barulhenta, rolava nas sargentas. 
Havia pouco que eu chegara da rua. Estivera preso por causa da chuva, até quase aquela hora, em casa da família Brasil.
Debruçado sobre a mesa, com diversas tiras de papel á minha frente, tentava rabiscar alguma coisa para o jornal de um amigo - o Oliveira. Mas nunca me senti tão embotado como naquela noite; encontrava uma certa dificuldade em escrever e faltava-me também o assunto.
Metia com força a pena no velho tinteiro de vidro e ficava a pensar, com os cotovelos fincados na mesa...
Desanimado, com bastante sono, cruzei os braços e pus-me a andar ao longo do quarto. Sentei-me novamente, com os dedos enterrados nos cabelos, e fiquei á espera, á cata de um motivo para o artigo.

O Oliveira, nortista de talento e muito moço ainda, era o diretor do jornal. Conheci-o numa tarde fria de junho, no Café Acadêmico.
Fazia pouco tempo que aparecera na Capital e, de um dia para outro, começou de assinar artigos de valor em quase todas as folhas diárias.
Quando fundou o seu jornal, no ano passado, pediu-me que mandasse alguma coisa, que escrevesse...
Lá ficava ele o dia todo, com um par de vidros grossos brilhando nos olhos a escrever atentamente, ou a folhear algum livro, muito curvado sobre uma das mesas da redação. 
Magro muito triste, tossia continuado e andava sempre metido num terno antigo de casimira prata.
O Oliveira Netto era uma grande alma e um grande amigo e foi com profundo pesar que o abracei na gera da luz, quando embarcava para Minas, em busca de melhoras para sua saúde...
- Quem é que anda aí? Erguei-me de um salto e perguntei com voz tremula, apertando, nervoso, o cabo do punhal.
As minhas palavras perderam-se no aposento fechado. Tudo silêncio. Só a chuva continuava lá fora.
Alguém andava na sala. Senti o arrastar de uma cadeira e o ruido que faz uma pessoa ao sentar-se. Escutei melhor e ouvi a cadeira estralejar de novo e os passos continuaram meio arrastados, parando diante da porta fechada do meu quarto...
Um arrepio de medo, como um forte choque elétrico, ocorreu-me da cabeça aos pés. Não era possível, pois só eu morava ali e as portas estavam bem trancadas, tinha certeza disso. Não era possível!
Estaria eu dormindo? Belisquei-me para me certificar da verdade e trinquei o beiço de dor. Estava acordado e em perfeito juízo.
E assim passei momentos angustiosos, retendo, apavorado, a respiração e fazendo mil conjuras.
Criei coragem e, resoluto, ia abrir a porta, quando uma voz abafada, vinda de fora, quase como um gemido, falou vagarosa e arquejante:
- A morte de Oliveira... escreva sobre a morte do Oliveira!
E os rumores dos passas se afastaram, meio arrastados, apagando-se ao longe, lá pela sala de jantar.
Fulminado por aquelas palavras fúnebres, cheio de terror, senti uma espécie de vertigem e cai sentado pesadamente na cadeira.
Gotas de um suor gelado rolavam-me pelo rosto. Tudo aquilo parecia um sonho.
Inerte, quase sem tomar folego, como que petrificado, ali passei o resto da noite, sem atnar bem com o que devia fazer - se obedecer ou não a voz misteriosa...
Fora, distante, os primeiros cantos dos galos misturavam-se com o ruído da chuva que caía sempre. Perto, na esquina, um trilar agudo de apitos rasgou a monotonia da noite...
Pela manhã, logo que a cidade acordou, fui ansioso ainda impressionado, á redação do jornal do Oliveira, pedir notícias do meu infeliz amigo. Encontrei os seus auxiliares alvoroçados. Um telegrama lacônico, vindo de Minas, tinha trazido a nova do falecido de Carlos de Oliveira Netto.
E, quando entrei, o Reis, secretário do jornal, adejando tristemente no ar a sua mão pequena e magra, exclamou:
- Vieste em boa hora. Escreve para nós o necrologio do Oliveira, tu que o conhecias tanto e que tanto o estimavas...
E até hoje ainda cismo, cismo sem compreender bem, e guardo comigo o mistério daquela noite de chuva e de frio..."

Aterrorizante, logo postaremos a segunda parte com mais contos do ilustre Dr. Borges Netto e suas publicações na Revista Alvorada. 

A lenda da Capela São Miguel

A Capela São Miguel é mais um belo prédio histórico da cidade. O município através do SERPHAM (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico do Município) junto com a Igreja trabalha para a preservação da capela e de outros bens religiosos da cidade, levando em consideração sua importância histórica para a população. A Capela São Miguel é lembrada até hoje para referenciar o antigo cemitério da cidade, o mesmo funcionou ao redores da capela até o ano de 1913. Logo depois de desativa-lo, anos seguinte foi usada como necrotério, para velórios, etc. Até hoje a capela funciona; com atividades religiosas normais e como um vínculo de prestação de serviço e auxilio aos fiéis, que com muito carinho, preservam a igrejinha.

Mas enfim, tirando toda sua história documentada, temos as estórias, e são várias, que envolve o imaginário do povo sobre a capelinha. Não podemos negar toda essa sua conjuntura sobre um cenário de medo, horror e tabus que com pouco esforço é fácil achar nas ruas da cidade. Existe quem não visita cemitério, existe quem tem medo e existe aqueles também que dizem normais suficiente para reconhecer o cemitério como um lugar qualquer. Bom, o cemitério não é um lugar qualquer. Ele é sagrado, respeitado e utilizado como o principal mecanismo para os ritos de passagens em várias religiões pelo mundo e desde quando o homem é homem, ele desconhece e teme a morte, aliás, o homem é o único animal no mundo que sabe o que é a morte, bom, mas isso é outro assunto, vamos voltar para a capela. 

Uma das melhores lendas da capela é sobre sua origem, digo, o motivo pelo nome que leva até hoje. É aterrorizante.

Antes de tudo o que vimos até agora, no início do século XIX diziam que no lugar da capela, morava uma família desconhecida. Pai, mãe e três filhos. O filho mais velho já era jovem adulto e o menor, era um garoto de 3 anos. Durante a noite, o rapaz demonstrava comportamentos estranhos, era agressivo e passava horas no fundo da casa no meio do mato no meio do nada e voltava só na calada da noite para se recolher. Preocupados com a atitude do filho, convidaram um padre local para jantar com a família uma noite, o pior é que o padre não conseguiu chegar até a casa da família, dizem que se perdeu no caminho, outros dizem que ele nunca mais apareceu. Na mesma noite, o rapaz repetia sua rotina. Ao retornar para casa, desesperado pegou uma foice e matou os pais e os irmãos. No seu julgamento, ele relata que não reconheceu a família, no lugar, viu quatro bestas peludas que vomitavam sangue. Depois do transe viu a família toda morta. Arrependido e chorando muito foi para o quarto, ao chegar lá o anjo Miguel estava parado sobrevoando sua cama e dizia que levaria todo seu arrependimento para Deus, mas que era para ele destruir a casa que se encontrava no poder e domínio do diabo, assim salvaria a terra. Disse também ao rapaz que futuramente naquele lugar levaria seu nome uma igreja, o nome de quem salvou aquele lugar da desgraça do demônio.

Capela São Miguel - Campanha MG -1922 / Fotografia: CDECML

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Divulgação

Colegas trabalhando com um blog interessantíssimo que reúne e expõe a história da Santa Casa da Misericórdia da Campanha, com o título de Periódico Lírico.

BLOG: HISTÓRIA DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DA CAMPANHA






O homem de branco

O senhor Moises Moreira da Silva, seu Iron, vive seus 73 anos hoje e durante toda sua vida morou na R. José Augusto Lemes (av. 2 de Outubro). Seu pai levantou uma pequena casa bem próximo da igreja de nossa senhora do rosário. Seu Iron tem muitas lembranças da infância e sobre fantasmas, conta: 

Quando criança costumava jogar bola e brincar com os amigos no campo onde  hoje fica a igreja.
"Passávamos o dia lá, a criançada toda que gostava de jogar bola. Meu pai costumava me chamar a noite e eu acredito em assombração porque eu vi. Não sei o por que, mas eu vi. A noite meu pai colocava o cavalo no quintal de casa e me chamava na rua. Uma desses noites, meu pai não apareceu e fiquei esperando ele me chamar, até que vi um homem de branco de chapéu branco caminhando na e rua indo para minha casa. No começo vi que não era meu pai, hoje já não sei o que podia ser. Corri e quando cheguei até o quintal não vi ninguém".

Até hoje é possível ver o tal homem caminhar no pasto que tem próximo a casa do seu Iron, não é o primeiro caso. Vamos buscar mais relatos sobre o homem fantasma que surge do nada na R. José A. Lemes e descobrir se mais moradores já viram. Seu Iron também conta sobre atividades estranhas que aconteciam entre o campo de futebol e um terreno desocupado do lado.

"Além do homem, passei por mais coisa que não tem explicação. Quando brincávamos na rua, algumas vezes, alguém ou alguma coisa atirava pedra na gente. As pedras vinham do terreno em direção ao campinho.
Até hoje não sei se alguém estava lá jogando, ou se até mesmo, o homem de branco era meu pai tentando me assustar. São coisas que não sei dizer, mas se for assombração eu acredito também". 

Agradecemos o carinho e o colaboração do seu Moises com nosso blog e gostaríamos de esclarecer: não são todos que de alguma forma 'aceita a identificação' nas postagens o que dificulta nosso trabalho e compromete o mesmo com ausência de fontes, sabemos disso, mas respeitamos a descrição que é solicitada e também agradecemos a compreensão dos leitores. 

Interessante? Veja outro caso semelhante: O fantasma que jogava pedras. / Blog: Medo Macabro. 

Obrigada, bom dia!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Tradição viva!

O homem na sua condição de ser pensante cria e recria culturas a cada momento. Não existe homem que não é inserido ou que faça parte de uma tradição. A tradição é viva e ao mesmo tempo renasce a cada dia, dentro de algumas civilizações, a cultura e tradição são tão valiosas que representam a política e as leis. Sua importância vem da memória. A memória coletiva é um conjunto de costumes que um determinado grupo de indivíduos compartilham de forma igual. 
Essa memória é o que une uma população, seja na religião, festas e nas práticas diárias. Por exemplo, uma mulher quando tem um bebê e o pequeno começa a soluçar, logo colocam um fiapo de toalha na testa para passar. Tem quem faça isso sem saber qual o verdadeiro efeito do fiapinho, mas confia nos ensinamentos dos pais e dos avós, dos bisavós e etc., a confiança é o fruto da tradição, é a confiança que mantém a memória coletiva viva. Este mesmo bebê, confiando nos pais, transmitindo seus ensinamentos, quando crescer, repetirá com seus filhos, vai fazer a mesma coisa, assim seguirá o fiapo, com seu conceito de cura de soluço. Muitas práticas, como a do fiapo, a benza, o chá de quebra-pedra etc., são conhecimentos que estão vivos por causa da cultura de repassar memórias. 
Mesmo que não seja biologicamente comprovado a eficácia de um fiapo de toalha na testa da criança na cura de soluços, tem quem faz até hoje, não por acreditar - na maioria das vezes - mas por respeitar os conhecimentos dos antigos.
A sabedoria é outro assunto de extrema importância quando se trata de tradição. A sabedoria é uma honra. Na minha opinião, o sábio é aquele que tem a capacidade de ouvir, ensinar e viver, usando como força primordial a humildade. A sabedoria, segundo Aristóteles, seria a manifestação da felicidade no uso do caráter e das conquistas por base da excelência, a ética. Enfim, o que leva um folclore a ser considerado sabedoria? Resposta simples. O folclore tem poder cultural. Conhecer a cultura que está inserido e ao mesmo tempo reconhecer seu papel no desenvolvimento não só social, mas também econômico, é uma sabedoria. Resumindo, tradição é coisa séria, é acima de tudo, o respeito pela própria estrutura que foi criado. 

Saci Pererê - criatura mítica brasileira.


A Lenda é uma narrativa fantasiosa e toda aflorada que vem para divertir e atribuir uma identidade cultural à região. Nos últimos dias, passamos por situações assim. Na lenda da entidade que empurra bicicletas na curva do 'bananá', por exemplo, é atribuído o uso da bicicleta como referência, ou seja, aquilo que o fantasma empurra, é bem simples o motivo; algumas pessoas que costumam usar a estrada, quase sempre estão de bicicletas. O fogo que persegue o carro é a mesma coisa, já que também é comum os carros. 
O uso de materiais que estão ativos diariamente na vida do povo é usado para referenciar as lendas. A imaginação é construída através de um contato cultural com o meio que vive. Pode ser que não acredite, mas o pai viu, o avô viu e essa é outra pegada interessante do folclore. Se levarmos em consideração o respeito e a honra que o filho tem por seu pai ou vô, ele automaticamente reconhece aquilo como seu, mesmo não acreditando. No caso de quem não é parente, mas passa as lendas mesmo assim, o motivo é atribuído a memória popular ou coletiva.
Um senhor com seus 80 anos de idade que ainda é capaz de contar sobre sua infância é o que se conhece por conhecimento sensível. A sensibilidade é a empatia pela lembrança, ou seja, mesmo passando anos o indivíduo consegue levar aquela memória consigo nítida ou como dizem "lembro como se fosse ontem" pois de alguma forma muito pessoal o marcou a ponto de ser importante mesmo que não não tenha consciência disso. 
O ser humano é uma criatura racional capaz de produzir sentimentos por suas lembranças. O trabalho de coletá-las é humano, é você abrir espaço para que alguém conte sobre sua vida. A História é contada pelo povo, não existe história exclusiva, existe humano e todo humano produz história. Toda lembrança é válida, toda lenda é importante. 
  

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Curvas Assombradas?

Coisas estranhas, coisas assustadoras que o povo conta de Campanha não tem limites. Hoje vamos conhecer as possíveis "curvas" assombradas da região rural da cidade. Ainda na Avenida 2 de Outubro, essa semana conhecemos a Curva do Bananal ou "Bananá" e a curva do Óleo. São bem próximas e são bem conhecidas por quem tem o costume de frequentar a barragem. A primeira curva é a curva do óleo. Com uma árvore antiga, que é conhecida pelos moradores por abrigar a lenda da "alma do seu Joaquim do Óleo".

Conhecida Curva do Óleo pelos moradores locais.

Dizem que espíritos ruins se escondem atrás das árvores para seguir quem por ali passa. As pessoas que conversamos, sobre a curva dizem que nunca viram nada, mas sempre ouvia um pai, tio ou amigo relatar ocorridos sobrenaturais aí. Segundo a lenda, quem passa numa determinada hora consegue sentir um frio percorrer o corpo, o que muitos dizem ser a presença de seres de outro mundo. Foram poucos os relatos sobre a curva do óleo, não sabemos ao certo quem era seu Joaquim do Óleo caso seja algo que nos interesse logo postaremos.

Curva do Bananal (Bananá)


A conhecida curva do "Bananá" é uma bela mistura entre beleza natural, calmaria e assombração. Conhecida por manifestações desde poltergeist até fantasma de animais. Não tem nada de anormal, até encontramos com um senhor que confirmou o que procurávamos. Ele mesmo nunca viu nada, mas sempre ouvia que alguma força de outro mundo costumava empurrar coisas. Outro dia postamos sobre a 'bola de fogo' que perseguiu um carro nas proximidades da curva o que confirma a fama de assombrado do lugar.

"Eu mesmo nunca vi nada, mas conheço uma mulher que ia até a cidade pela manhã vender leite que sentiu alguma coisa empurrar sua bicicleta". Disse o senhorzinho.

Um garoto também sentiu algo empurrar sua bicicleta uma vez, segundo ele, algo tentou jogá-lo para fora da estrada, mas conseguiu sair bem da situação. Além do Poltergeist, a curva também é conhecida pelo fantasma cachorro que sobe na garupa das bicicletas. O que conseguimos sobre essa lenda, é que um cão muito preto costuma subir na bicicleta de quem passa no "Bananá" meia noite; o animal desaparece assim que chega no final da curva.

Enfim, as lendas estão vivas, quem por ali precisa passar todos os dias, seja para ir trabalhar ou ir para casa, tem um enorme respeito pelas estórias de seus antigos. Isso é legal. O imaginário popular vive!

O que seria Poltergeist?

Poltergeist são manifestações sobre-humanas que não possuem explicações definidas para ações motora de objetos inanimados ou influência desconhecida sobre algo animado. São fenômenos que costumam mover copos, cadeiras, camas, pessoas etc sem uma explicação físico científica.

Cadeiras se movendo no ar sem auxílio físico em uma sessão de médiuns. Fotografia do blog: Arquivos do Insólito.

Tentaremos conseguir mais relatos de moradores sobre as curvas e mais informações sobre as lendas do Joaquim e do cão fantasma.

Boa Noite!

domingo, 11 de outubro de 2015

Coisas estranhas no céu.

Existe vida extraterrestre? Muitos acreditam, mas é assustador imaginar, principalmente se for levar em consideração filmes como Contatos de 4º ou Sinais. Alienígenas estão presentes em produções de ficção científica e terror etc., mas também na imaginação do povo. São assustadoramente horríveis e estão sempre aí nas estórias da população como algo intocável, misterioso e que veio para abduzir pobres infelizes.

Milhares e milhares de relatos foram coletados pelo mundo sobre avistamento de OVNIS e ETs. A Ufologia já não é mais um simples mecanismo de diversão para pesquisadores de extraterrestres, é mais do que isso, é um pequeno espaço da ciência que vem ajudando curiosos leigos no trabalho de registros de atividades assim.

Mas e Campanha? Tem relatos também. Segue.

OVNI NO CAMPO DE FUTEBOL

É inacreditável o que aconteceu na cidade no final da década de 70 (Não temos certeza da data). A "chapada" como é conhecida Avenida 2 de Outubro, ou Rua José Augusto Lemes era responsável por um pequeno campo de futebol simples montado pelos próprios moradores. O jogo era costume de final de tarde nos finais de semana da turminha. Uma noite algo surreal aconteceu! No fim da última partida os jogadores e um pequeno grupo de acompanhantes ouviram barulho de vento, mas não sentiram nada. "Atrás do campo havia muito mato. Era tudo muito escuro e do meio disso surgiu uma enorme bola brilhante que foi subindo lentamente até sumir no céu. Todos que estavam presentes, testemunhando isso desmaiaram". 

Esse relato não é de uma testemunha, mas de um interessado em Ufologia que pesquisa o mesmo na cidade, vive aqui e acredita nas lendas que trazem extraterrestres. Outro surpreendente caso registrado em Campanha, que até chegou a sair nas páginas da Revista UFO é relato, aliás, confirmado por testemunhas.

"Uma noite de sábado na praça começaram a surgir várias luzes arrendondadas no céu. Muitos viram. As luzes corriam e se chocavam entre si, eram várias e com o tempo foram surgindo mais. Na época, Ubirajara Franco Rodrigues (famoso ufólogo campanhense) trabalhava no caso de Varginha e ele mesmo acompanhou a situação no céu da Campanha. Ele foi uma das testemunhas. Confirmado como caso OVNI tempo depois e publicado na revista UFO".

Talvez o caso ET de Varginha tenha despertado não só a imaginação dos moradores de lá, mas também de cidades vizinhas. É bem comum alguém trazer relatos de OVNIS sobrevoando a casa, fazenda, etc que coincide com o aparecimento dos ETS em 1996. Verdade ou não, não duvido da existência de vida fora da Terra, ou melhor, fora do nosso próprio sistema solar.

Tem quem diz que o carro foi de encontro com luzes estranhas na rodovia Vital Brazil, luzes que ao se aproximar o máximo subiam para ultrapassar o carro. Isso sim é assustador!

Com um chapéu de alumínio podemos preservar nossos pensamentos.

Não estamos sozinhos.

Boa Noite!

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

SOBRE O TRABALHO...





"Ah, vocês querem saber sobre coisa atrasada?" 
Moises Moreira da Silva, seu Iron 73 anos.



Trabalho que vem valendo muito. Queremos postar muito mais e cada vez sentir mais esse folclore da Campanha. Entender sua importância na construção cultural do povo.

Não temos muito tempo para buscar de casa em casa, por isso, contamos com a ajuda de quem se interessar.

Entre em contato conosco com o seguinte e-mail:

grupo2uemg@gmail.com

Lendas, coisas que o vô ou vó conta, é necessário a identificação, mas a postagem no blog pode ser opcional. 

Obrigada!

ANTIGA IGREJA DAS MERCÊS

A mencionada Igreja de Nossa Senhora das Mercês já não existe mais em Campanha. Era uma Igreja, para os escravos católicos. Tem avô por aí que vive dizendo que junto da Igreja tem um pequeno cemitério. Grosseiramente falando, a igreja era no região do Largo  das Mercês, hoje entroncamento da Dr. Brandão com a rua do antigo Pronto Socorro, mais precisamente: Rua Comendador Paulo Ferreira.

Igreja N.S. das Mercês - Campanha - 1903/Fotografia: CDECML

Alguns antigos da cidade afirmam que a igreja era mal assombrada por almas perturbadas que sofreram durante toda vida mortal. Um senhor afirmou que quando criança, vivia na casa de um tio e passava pelas proximidades do antigo prédio. Sempre dizia que de longe era possível ver uma maleta voando na rua, como se alguém estivesse carregando. As vezes a maleta sumia no ar, sobre seus olhos. Ele conta isso até hoje e afirma veracidade total.

Uma senhorinha muito querida também disse algo estranho sobre o local da antiga igreja. Seu futuro marido sempre ia visitá-la; na época residia no que hoje é a Rua Cônego Antônio Felipe. Uma noite, ao se despedir do namorado e se recolher (como ela mesmo disse) alguns minutos antes o rapaz apareceu na porta da sua casa, pálido, assustado e dizia que viu o que parecia ser um homem caminhando, mas com um detalhe, o mesmo não estava com os pés no chão. Na mesma hora, ela chamou a mãe e os três foram para rua, não viram mais nada, só escuridão.
Essa mesma senhorinha disse que durante toda infância "quando noites de muito silêncio" era possível ouvir depois da meia noite gritos e gemidos, o que nos leva acreditar que nas ruas próximas do local da antiga igreja, tem almas perturbadas vagando pela madrugada. Não conseguimos muita coisa sobre sua demolição e lendas que envolvam as ruas, mas postaremos assim que tivermos.

"Muito dos gritos que eu ouvia, minha mãe não escutava. Ela escutou uma vez; lembro dela trancando a porta da sala com medo de  lobisomem, mamãe tinha medo de lobisomens". Concluiu o relato.

Dizem alguns antigos que igrejas abrigam almas apagadas. Almas que não tiveram uma boa morte ou um rito, celebração de passagem para o segundo plano. Resta para essas entidades perambular pelas proximidades de lugares que tenha uma grande concentração de energias (um plano mais fino entre os dois mundos). Templos de várias manifestações religiosas concentram grande número de energias e meditações geralmente de aspectos positivos; almas apagadas se alimentam de energias assim, para aliviar um pouco o sofrimento da morte. Muitos espíritos não aceitam a desencarnação, se tornam entidades más, almas errantes que perturbam os vivos apenas pelo prazer de vê-los com dúvida e medo.



Boa Tarde!

terça-feira, 6 de outubro de 2015

ORBS e Bolas de Fogo

Bolas de fogo flutuantes não é uma coisa comum só da Campanha. Muitas cidades pequenas e com uma dominância rural é comum lendas que envolve as conhecidas BOLAS DE FOGO.
Existe explicações físico cientifica para a formação da substância, mas como uma parte de camponeses ainda levam uma vida muito simples denominam as bolas de fogo e os ORBS como manifestações sobrenaturais.

Os ORBS são partículas que muitas vezes são registradas em fotografias e raramente em vídeos. Normalmente, os ORBS são poeiras que refletem com o flash, formando, assim, uma bolinha brilhante de tamanho variado. Em muitas culturas, pelo mundo, é normal atribuir aos ORBS um conceito sobrenatural, afinal, muitos acreditam na vida pós morte.
A pouco publicamos sobre os ectoplasmas; ao contrário dos ectoplasmas os ORBS não são gerados pelo médium, são gerados pela luz.


Fotografia retirada do blog: mundoesoterico.blogger

Ao contrário dos ORBS e dos ectoplasmas, as bolas de fogo é quase cética e não há como atribuir manifestações sobrenaturais a elas, mas ainda sim, ha muitos relatos na memória campanhense, segue alguns.


FANTASMA DO CAFÉ


"Costumo acordar as 4 horas da manhã para ir trabalhar na minha roça. Chego lá em poucos minutos e um dia, acabei encontrando com uma assombração no meio do cafezal. Tenho que passar por um barranco para chegar até lá, e pelo barranco posso ver a plantação. Nesse dia vi que tinha uma luz caminhando lá dentro, imaginei que fosse alguém que já estivesse por ali trabalhando. Parei a bicicleta e esperei a luz chegar até a extremidade de um pé quando, do nada, a luz se desfez no ar. Fiquei arrepiado! Nunca mais vi essas coisas, mas ainda tenho muito medo."

BOLA DE FOGO DA CURVA DO "BANANÁ"


O local que já é famoso por suas manifestações sobrenaturais, logo mais, postaremos mais informações sobre o lugar. "Voltava de uma missa numa noite de sábado, quando vi pelo retrovisor uma coisa estranha "correr" atras do meu carro. Era uma bolinha amarela, uma bolinha de fogo, fiquei muito preocupado, porque sempre tive muito medo de passar la por perto. Com a medida que me afastava do lugar a bola sumiu. Raramente pego o mesmo caminho agora, não sei o que era, mas não era coisa normal."

domingo, 4 de outubro de 2015

O Cemitério Municipal

O cemitério é muito comum na vida humana, tão comum que nos primeiros séculos da Idade Média toda atividade social e religiosa era feita em volta das lápides. Há relatos de tabernas com reserva de vinho no subsolo junto com ossada humana. É, se isso soa estranho, talvez seja melhor irmos direto ao assunto. 

O atual cemitério da cidade de Campanha fica na Rua Pastor Nivaldo de Oliveira e é conhecido por suas belas esculturas em mármore e pelos túmulos de pessoas ilustres e de famílias que estão por aqui já ha séculos.

     Anjo em mármore - Campanha MG - Fotografia retirada do Flickr.


    Caixão Infantil - Campanha MG - Fotografia retirada do Flickr.

O cemitério é um lugar de descanso, paz e respeito. Um lugar de saudades e que desperta a curiosidade e a arte de várias maneiras. Sua tristeza e os assombrosos túmulos já foram motivos para muitos contos e lendas da cidade. 

A LUZ DO TÚMULO

Três senhoras numa manhã marcaram de ir ao cemitério para rezar no aniversário de 1 ano de morte de um velho companheiro. Ao se aproximar do túmulo destinado, uma das mulheres viu por cima do ombro das outras duas uma luz esfumaçada interessante saltar de um túmulo e dirigir para outro, e assim se seguiu por mais 10 lapides até desaparecer por completo.
Logo que viu a estranha fumaça, informou as outras duas amigas, que também viram a atividade sobrenatural dançar no ar e cair sobre os túmulos.
Segundo uma das testemunhas, o que viram era uma 'manifestação boa', uma energia boa envida por Deus para acalmar as almas tristes.
Depois do ocorrido, as três ainda voltaram no mesmo mês mais duas vezes para rezar, nada mais foi visto.

O PÁSSARO FANTASMA

Um morador da Rua Martins de Andrade garante fielmente ter visto um pássaro de origem sobrenatural. Toda manhã, quando passava na frente do cemitério seguindo para o trabalho, via o tal sobre o muro. No começo não atribuía coisa estranha ao bichinho, tudo muito normal, até o dia que do nada, ele desapareceu no ar, como fumaça. Estranho?

ENTIDADE DE BICICLETA
É comum o cemitério ter uma imagem macabra nos livros e nos filmes e também no imaginário da população, mas essa  possível aparição é, sem dúvida, de 'arrepiar até um careca'. 
Nas noites, dizem alguns antigos moradores da região, que é comum aparecer atrás dos muros do cemitério um garoto com uma bicicleta, que se caso estiver com sorte (ou melhor não) pode vê-lo pelo portão. Bom, não seria uma coisa muito legal de se ver né? 
"Foi como um pesadelo" diz um morador próximo que viu o possível garoto fantasma. Continua "Eu até pensei em chamar a polícia quando o vi. Não é muito legal andar a noite no cemitério e ainda de bicicleta, poderia acabar se machucando ou depredando alguma coisa. Daí quando me aproximei do portão para chamar o garoto, ele pulou com a bicicleta sobre um dos túmulos que fica logo na entrada e seus olhos brilhavam como duas lanternas, seu cabelo era branco e eu conseguia vê-lo perfeitamente na escuridão. Fiquei com muito medo e segui direto para casa, sem saber se era uma pessoa ou qualquer outra coisa. Eu não acredito em fantasmas, mas não gosto de coisas assim."
E pelo o que ficamos sabendo, essa não foi a única vez que alguém vê um garoto estranho com uma bicicleta. Uma senhora, já falecida, costumava ver nos meses antes da morte um 'garoto com sua bicicleta' na sala da casa. Ela perguntava aos filhos e netos quem era o menino, não viam nada, ficavam assustados e tinham calafrios terríveis quando ouviam ela dizer essas coisas. Antes de morrer, a última vez que ela viu, segundo um de seus netos, foi dentro do próprio quarto, saindo pela porta. Dias após a sua última aparição, ela morreu. 


Mais casos do imaginário popular da cidade será postado. 


Boa Tarde! 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O fantasma da capa preta

Dizem que morar no campo é agradavelmente bom. Durante o dia ,quando possível, você relaxa na tranquilidade do ar puro, com a rotina dos animais e com a sintonia harmoniosa que apenas a região rural pode passar. Mas toda felicidade tem seu preço. A próxima lenda é arrepiante e se passa nas proximidades da região rural da Campanha, a conhecida São Bento. O fantasma da capa preta.

Arquivo Pessoal - Retirada do Google Imagens

Segundo relatos, nas noites frias do inverno, quando na região, costuma chover muito, pode esperar que o homem da capa preta aparece. Um ser com uma capa e um chapéu pode ser visto com seu cavalo vagabundo de pelagem escura. O tal espírito, costuma pedir informações quando encontra com alguém. Dizem, que ele pergunta o caminho mais fácil de se chegar no centro da cidade, quando  é passado a informação, ele desaparece. Dizem também que este fantasma pergunta sobre como ir a cidade para capturar as almas infelizes que caminham na chuva fria da cidade.

Um relato pessoal afirma ter encontrado com o tal homem:

Numa noite, ao caminhar pela região, um senhor foi surpreendido por uma fina chuva e também por um cavaleiro assustadoramente molhado e com um chapéu que lhe escondia o rosto. O mesmo senhor concedeu a resposta e continuou o caminho, segundos depois, olhou por cima do ombro, o velho não viu nada. 

Arrepiante? Verídico? Quem sabe!